Empreendedorismo

Um sinal de fumaça para os náufragos inquietos: vocês não estão sozinhos nessa

Hoje meu principal foco de trabalho é ajudar as pessoas a identificarem e colocarem em movimento seus talentos e pontos fortes. Por conta disso ouço sempre uma pergunta, com algumas variações mas que gira basicamente em torno do seguinte:

– Gosto de muitas coisas, tenho muitas aptidões, vejo que tenho diversos interesses, mas não consigo me aprofundar em nada. As pessoas dizem que eu devia me focar num interesse, que sou disperso, que eu deveria ser mais decidido. Será que ter tantas paixões é um problema? Será que algum dia vou encontrar o meu talento?

Começo a nossa reflexão com uma frase da escritora Brené Brown (que inclusive participa de um TED-Talks bem bacana, compensa procurar e assistir):

“Autenticidade é a prática diária de abandonar quem nós pensamos que devemos ser e assumir quem somos”.

Ser verdadeiramente quem se é. Sem se prender ao que deveria ser, porque esse lado negro da força sempre vai lhe puxar pra baixo dizendo que você não é o suficiente, dizendo que você tem um valor condicional: você só terá valor se for bem-sucedida dessa e tal maneira, se você se comportar de tal forma, se você se encaixar no modelo que lhe impuserem.

“Mas e se os outros acharem que não sou boa o bastante? Se eu for autêntica e não agradar?”. 

Bem, a autenticidade não é mesmo um caminho seguro. Fato. Mas é o único em que podemos ser. Optar pela plenitude, que é viver a realidade de que eu tenho valor agora, exatamente como eu sou e onde estou.

Então vamos investigar um pouco: o que você mais gostava de fazer desde pequeno(a)? Naquela época em que só tinha vontade de fazer e pronto, onde ainda não havia pressões do tipo “isso dá ou não dá futuro”, “assim você ganha dinheiro ou não”. Talvez pessoas que hoje são taxadas de “inquietas”, “dispersas”, percebam nessa viagem no tempo que sempre tiveram encanto pelo novo. Sempre lhe encantou encontrar novos destinos, ter sua mente alimentada por novas ideias a cada encontro com algo diferente, se sentir vivo por estar em movimento.

Quais eram os seus impulsos e o que lhe empolgava de verdade? Você ainda se permite estar em contato com esses combustíveis de vida?

Roman Krznaric é autor de um livro que se chama “Como encontrar o trabalho de sua vida”, onde ele debate de um jeito direto e revolucionário as construções sociais em torno da educação e do trabalho. Esses sistemas limitaram nossos horizontes, dizendo que deveríamos focar todos os nossos talentos e toda a nossa energia numa só direção, desconsiderando a nossa multiplicidade de potenciais. Se Leonardo Da Vinci nascesse hoje seria considerado um gênio ou um desajustado? Ele, que expressou seus inúmeros talentos em várias direções, foi pintor, inventor, engenheiro, músico, filósofo, estudou a astronomia, o corpo humano e muito mais, provavelmente seria olhado meio de lado pelos especialistas e lhe colocariam uma série de rótulos negativos.

Nenhuma característica isolada é só negativa ou só positiva, depende de como a vivenciamos. No caso da multipotencialidade e da busca pelo novo, por exemplo, pode acontecer um efeito negativo por conta das exigências externas que introjetamos. Como somos bombardeados com a ideia de que ser assim não é bom, ficamos pulando de galho em galho, como insatisfeitos crônicos mesmo, afinal não conseguimos produzir, realizar, nem aprender, nem usufruir com prazer das criações e novidades, afinal uma voz interna fica dizendo: “você está no lugar errado, você está do jeito errado, está tudo errado”.

Quanto de energia você ganharia se não deixasse mais a sua força escoar, por causa da tal preocupação em ser de outro jeito que não o seu?

Passando a se conhecer em profundidade, como você funciona e aceitando-se como é, você consegue usar todo o seu potencial, de maneira plena e saudável. Reconhecer que cada um tem seu perfil. Aqui estou falando com quem tem esse perfil criador, ativo, inovador, mas existem pessoas com outra forma de ser e que são igualmente incríveis. O mais frutífero é colocar foco no seu positivo e isso traz muito mais energia para realizar, aprender e curtir a jornada de crescimento que é a vida. Tire partido de tudo que você já tem!

Agora, quero colocar você para pensar, por isso aqui vai um exercício prático para você responder:

– Observe seu jeito de ser e liste tudo que ele já lhe proporcionou de melhor: oportunidades que surgiram, aprendizados, novas amizades, sensações, situações…

– Quais novos usos você poderia fazer desse seu jeito de ser em sua vida, aceitando o seu melhor? Que novas oportunidades, novos campos, novos horizontes, você poderia abrir? Como você poderia usar melhor seus dons de maneira prática no seu cotidiano?

– Onde você poderia fazer ajustes, mas sem perder a sua essência?

– O que tem guiado as suas escolhas até aqui?

– Quais motivações você quer que guiem as suas próximas escolhas?

Se eu pudesse, lhe daria alguns conselhos de amiga. Diria para aproveitar melhor a jornada e cada vitória: criadores e inquietos costumam ficar muito ansiosos pela próxima novidade e ganhariam muito mais inspiração se curtissem melhor cada passo. Dê-se tempo para estar só, para arejar a cabeça, se inspirar e tomar decisões. Tenha um espaço para desaguar esse universo de energia que está todo concentrado aí dentro. E por fim, seja você! O mundo tem muito a ganhar com a sua presença. E sendo você de forma autêntica, será mais fácil encontrar a sua turma. Use o seu olhar buscador para lhe orientar – e não para desorientar. Tenha em mente a bússola dos seus valores, do que realmente importa, que vida você quer levar e que marca você pode deixar no mundo. Seja!

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Texto originalmente publicado no site Juliana Garcia. Reprodução autorizada.

Créditos das fotos: Kyle Thompson (imagem de topo); e  Laia Abril.




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