Empreendedorismo

O que aconteceu quando contei para os meus pais que seria nômade digital

Tomar uma decisão que vai mudar a sua vida não é algo que pode ser feito do dia para a noite. É uma decisão difícil e por vários motivos. E se já não é tão simples pra gente, imagina para os nossos pais aceitarem que de uma hora para outra seus filhos vão mudar completamente o rumo de suas vidas.

Quando decidi ser nômade digital, em março de 2014, estava no último semestre da faculdade de jornalismo e fazendo meu TCC. Não teria momento pior do que esse para contar aos meus pais. Pensei em fazer isso depois da faculdade. Fui estudando e vendo quais seriam as possibilidades, mas sem contar nada e sabendo que o passo maior seria depois de formado. Apresentei meu TCC, terminaram as aulas e eu estava com mais tempo livre. Começava ali a estudar mais essa possibilidade e já ir estruturando qual seria minha ideia.

No final de agosto pedi demissão do meu trabalho, onde ficaria trabalhando até o final de setembro. Foi a hora de contar para meus pais que depois disso eu não teria mais férias, carteira assinada, 13º e nem precisaria cumprir horário todos os dias. Confesso que foi bem difícil.

Eu tinha conseguido um freela que me pagaria quase a mesma quantia que eu ganhava, então eu acabei dizendo que esse seria meu “emprego”. Isso ajudou um pouco. Até descobrirem que eu não teria mais carteira assinada e todos esses “benefícios” tão importantes para algumas pessoas.

A situação piorou mesmo quando eu comecei a trabalhar em casa. Para eles, trabalhar em casa é a mesma coisa que não trabalhar. Para quem trabalhou a vida inteira das 8h às 18h, em um local específico de trabalho e trabalha até hoje (no caso do meu pai) era totalmente inaceitável eu ficar em casa. Sem contar que eu tinha acabado de me formar em jornalismo e para a tristeza deles não estava trabalhando na Globo. Ouvi várias vezes, principalmente da minha mãe, a seguinte frase: “eu não esperava ver meu filho se formar para trabalhar no porão de casa”. Mas eu estava feliz com essa decisão. E não preciso trabalhar só no porão. Posso trabalhar em qualquer lugar com internet.

Isso quando meu site ainda nem estava no ar. Eu já tinha contado a ideia do meu projeto, mas disse que não iria dar lucro desde o primeiro dia, assim como qualquer empresa. Com isso eles nem tiveram interesse em saber sobre a ideia.

No dia 4 de dezembro ele foi lançado e dias depois fui almoçar com meu pai. Nem sabia como contar para ele, já que ele não entenderia e nem iria querer entender, mas contei que tinha lançado meu site. A primeira, e única, pergunta que ele me fez foi: “já tá ganhando dinheiro com ele?” Eu respondi que não e quando tentei explicar para ele como funcionava, o assunto tinha acabado.

Só o dinheiro parece ser importante

Essa cultura do dinheiro é muito forte e com certeza atrapalha nós que estamos começando. Dinheiro é importante e necessário sim. Mas não é só isso que importa na profissão que você escolhe. A liberdade que eu tenho, a vantagem de poder trabalhar de qualquer lugar e escolher a hora que quero trabalhar não tem preço. Mas infelizmente a questão financeira era o assunto que tomava conta de todas as conversas sobre trabalho.

Todas as vezes que esse assunto foi comentado, lembro que meu pai dizia quanto eu estaria ganhando em cada emprego se eu ainda estivesse neles. Ele também falava que quando eu trabalhava fora não almoçava em casa, o que era uma economia para eles. Sem contar os discursos falando das vantagens dos benefícios da carteira assinada. Sou registrado como MEI, e quando tentava explicar que também tinha alguns benefícios, era ignorado.

A conversa sempre acabava da pior forma possível e meu pai me pedia quanto eu tinha ganhado no último mês. Como nunca ganhei um salário de dar inveja, ele me respondia que se eu não tivesse trocado tanto de emprego, estaria ganhando muito mais. Ele só esquecia de lembrar que trabalha há 35 anos na mesma empresa e ainda não ganha um salário digno. Mas claro, ele tem carteira assinada e isso é o que conta.

MoneyNomadFoto © giumaiolini

Infelizmente isso não acontece só comigo. As pessoas que querem o nosso bem são as que mais nos deixam tristes com esse tipo de atitude. Claro que daqui um tempo, quando a situação melhorar, eles vão dizer com orgulho que o filho deles trabalha na internet. Mas por enquanto não há motivos para se orgulharem. Afinal, ter mais qualidade de vida não importa se o salário também for menor.

Fico pensando também de que forma podemos fazer com que eles compreendam e apoiem as nossas decisões. Claro que é difícil, mas precisamos tentar. Acredito que uma das missões de quem trabalha como nômade é fazer com que as pessoas entendam o que você está fazendo. E nada melhor do que começar isso com as pessoas próximas.

Tentar conversar, mostrar o seu trabalho, algum texto ou trabalho que você fez e explicar como isso pode se tornar sua profissão é um bom começo. Claro que será difícil e demorado (eu ainda continuo tentando), mas esse é o caminho que devemos seguir para mostrar que quando estivermos na frente de um computador, seja na praia ou dentro de casa, estaremos trabalhando.

E, principalmente, mostrar exemplos de outras pessoas que tentaram mudar e buscar seus sonhos e deu certo. Mostrar como foi a trajetória delas, dizer que qualquer pessoa que inicia um projeto próprio tem uma longa caminhada antes de alcançar seus objetivos e que eles só serão alcançados se tentar. Pode não dar nada certo, mas pelo menos a gente tentou. E se der certo com certeza nossos pais vão ficar orgulhosos do caminho que tomamos. 

ass_dieverson

Você pode ler mais textos do autor no site Mudança de Planos.

Foto de topo via




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