Viagem

Na estrada pela América do Sul, brasileira cria mini documentário sobre mulheres que viajam sozinhas

Da pequena cidade mineira de Ervália para o mundo, a designer gráfico Angélica Lourenço começou a viajar sozinha e não quis parar mais. Essa foi a janela para se engajar na criação do documentário Solo Trip for Nosotras, que retrata sua própria experiência durante o último mochilão pela América do Sul, reunindo relatos reais de mulheres que viajam solo e cruzaram seu caminho durante essa jornada.

Viajar sem companhia não é novidade, mas para o público feminino, este tem sido um constante grito de liberdade e ruptura. Numa sociedade patriarcal que tampouco permite o uso sem julgamentos de certas roupas e a cabeça raspada, cruzar as fronteiras da própria cidade acaba sendo um ato de resistência. Como a repressão, assinada em nome do conservadorismo e do machismo, está intimamente ligada ao medo, é essa pequena palavrinha que ainda impede muitas mulheres de colocar a mochila nas costas e dar um pé na porta de casa, ou até mesmo nos repressores que as mantêm reféns da insegurança.

Na estrada por dois meses e cinco dias, Angélica visitou o Equador, Peru, Bolívia e Colômbia. “Durante essa empreitada decidi produzir, com quase zero recursos, um material videográfico, sobre viagem solo para mulheres. Encontrei no caminho muitas e muitas mulheres viajantes, todas muito decididas e confiantes da importância de estar na estrada. Foi uma experiência muito rica”, contou ao Nômades Digitais. O material rendeu relatos sinceros e reais, ressaltando os problemas existentes, as vantagens, os aprendizados e a bagagens culturais que elas carregarão por toda a vida.

A prosa sobre esse tema continua e você pode acompanhar abaixo, junto com o mini documentário:

Nômades Digitais: O que te levou a se jogar no mundo, sem a companhia de alguém? Qual era seu maior medo?

Angélica Lourenço: Eu comecei a viajar sozinha quando percebi que nem sempre as pessoas próximas a mim estavam no mesmo momento, na mesma vibe de conhecer tais lugares, de ter as experiências que eu estava interessada em ter. Uma das primeiras viagens que considero que fiz sozinha foi para São Tomé das Letras – MG em 2015. Naquele momento nenhum amigo estava com grana ou estava com vontade de ir. Abstraí tudo o que era contra e comprei a passagem de ônibus um dia antes e fui, antes disso entrei em contato com outras pessoas pelo site “mochileiros”e já na rodoviária encontrei algumas dessas pessoas.

No hostel conheci muitas outras e passei o feriado todo com novos amigos, foi uma experiência libertadora pois me senti independente nesse sentido, de não depender de outras pessoas para fazer o que eu gostaria de fazer, essa sensação foi muito boa. No início quando estava planejando a viagem eu tive um pouco de medo pois muita gente me alertava o tempo todo para muitas questões, mas quando comecei a viajar ele foi se dissipando aos poucos. Mas hoje posso dizer que um dos meus maiores medos era e continua sendo o de não realizar minhas vontades por medo.

Durante sua jornada, acabou rolando uma desconstrução sobre o que falavam e/ou sobre até mesmo o que você achava da experiência e dos lugares que visitou? O que mais te surpreendeu?

Sim, muita! Quando você se sente aberto a sua viagem pode mudar totalmente o tempo todo por que cada pessoa que você conhece deixa um pouco dela, te acrescenta algo e isso pode mudar seus rumos de viagem. Eu tinha um roteiro mínimo de algumas cidades para visitar e cidades que teria que percorrer para chegar nos meus destinos mas no meio disso tudo alguns percursos foram alterados, cidades acrescentadas e eliminadas, tudo a partir das trocas com os amigos que fui conhecendo pelo caminho.

Pode acontecer também de alguém falar mal de algum lugar e você ir lá e viver o contrário, então também tive a certeza de que é bom ouvir comentários e observações das pessoas mas também é bom você ir e experimentar você mesmo. Eu voltei da viagem amando a América do Sul e observando, apesar dos imensos problemas sociais que nós sulamericanos enfrentamos, que somos um continente maravilhoso, com culturas riquíssimas e muito distintas, com paisagens de tirar o fôlego e que todo esse território precisa ser mais visitado pelos brasileiros, somos vizinhos mas não nos conhecemos o bastante.

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Quais foram os principais desafios e os principais aprendizados?

Acredito que um grande desafio é saber lidar com os riscos sem perder a beleza da experiência da viagem. É entender um pouco do equilíbrio entre ser cuidadosa, responsável e precavida mas também aproveitar e viver o momento. Digo isso pois conheci muitas mulheres viajando sozinhas até hoje, cada pessoa tem seu estilo de viagem e muitas delas preferem e adotam medidas como: não sair muito a noite, ou ter cuidado extra quando sair, não beber bebidas alcoólicas exageradamente, ou mesmo as que fazem tudo isso mas estão sempre ligadas ao que está acontecendo.

Acredito que desenvolvi um pouco mais minha confiança em mim mesma, adquiri um senso de independência e uma das coisas mais importantes: percebi que existem muitas pessoas legais no mundo, não importa em que lugar esteja, é possível conhecer muita gente boa, é só estar aberto para isso.

No documentário, as meninas contam sobre o que os pais acharam dessa experiência de viajar sozinha. Mas o que os seus pais acharam? Você sentiu muita saudade de casa?

Meus pais acharam estranho. Meu pai não entendeu muito o porquê eu iria para um lugar desconhecido sozinha, sem ninguém para compartilhar. Minha mãe ficou muito preocupada, sempre que tinha oportunidade me alertava para algo. Eu mantinha contato com minha mãe e amigos diariamente pelo whatsapp, então foi tranquilo avisar e dizer que estava viva.

Eu estava passando por muitas experiências novas, conhecendo pessoas e lugares e tudo me prendia muito a atenção por isso acredito que não senti muita falta de casa, somente no finalzinho da viagem que fiquei com uma saudade leve da minha cama e do meu banheiro!

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Quanto tempo demorou para o doc. ficar pronto? Desde o início da viagem já pensava em fazê-lo?

Já havia um tempo que eu estava planejando fazer um mochilão por alguns países da América do Sul, estava planejando com duas amigas. Quando estava se aproximando mais a data de começar realmente a organizar a viagem, minhas duas amigas desistiram e eu continuei com muita vontade de ir, então decidi ir sozinha mesmo. A partir daí comecei a fazer minhas pesquisas sobre os lugares que gostaria de visitar e de voluntariar, sobre conteúdos online relacionados, buscar por depoimentos sobre viagem solo especificamente para mulheres e depois dessa pesquisa vi poucos depoimentos de mulheres contando realmente como é a realidade da viagem solo.

Percebi que eu poderia aproveitar esse momento, já que estaria fazendo uma viagem e conhecendo muitas pessoas, e que eu mesma poderia registrar e gerar algum conteúdo para compartilhar com mais mulheres que também possuem essa vontade. Pois muitas delas têm esse interesse mas não tem contato ou informação de que há muita gente fazendo isso de uma forma muito tranquila e proveitosa. Decidi, já que gosto muito da área de audiovisual, fazer o documentário a partir de entrevistas e da coleta de depoimentos de mulheres, por isso fui viajar com essa tarefa na cabeça. Passei a viagem toda fazendo entrevistas, quando surgia oportunidade e quando conhecia mulheres que se encaixavam no perfil. Cheguei em dezembro em Belo Horizonte e logo comecei a edição, mas ainda me faltavam alguns vídeos que estavam com um amigo colombiano, aguardei ansiosamente ele me enviar e quando os recebi terminei a edição mais ou menos no fim de janeiro.

Acabou criando uma amizade com as personagens que entrevistou?

Tenho o contato de todas elas, mas somente algumas delas se tornaram minhas amigas e mantemos contato até hoje, o que é muito interessante pois algumas continuam na estrada até hoje e é muito legal saber por onde andam no momento e as experiências que estão tendo.

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Como fez para lidar com os perrengues ao longo da sua jornada? Sentia falta de um ombro amigo?

Tive perrengues que me irritaram muito na época como: meu celular pifou no meio da viagem e uma parte de uma contenção dentária que tinha se quebrou também, mas hoje, depois que já passaram, vejo que foram pequenos! Mas sempre contei com a ajuda dos “novos amigos” que eu estava no momento, me emprestavam o celular para tirar fotos, me ajudaram com a contenção até que eu pudesse ir a um dentista, minha amiga peruana cortou uma parte da contenção com um cortador de unha pois ele estava me machucando, coisas assim.

Divide com a gente uma história incrível que você viveu neste período.

No meu último mochilão, fiz amizade com um sérvio que conheci em Copacabana, na Bolívia, e depois seguimos juntos para Sucre onde estávamos somente de passagem e não pretendíamos ficar muito tempo. Esse meu amigo estava em um hostel e me convidou para ir para lá pois tinha uma galera lá conversando. Fui para esse hostel a tarde e logo fiz amizade com algumas pessoas.

Neste mesmo dia fiquei amiga de um dos viajantes que fazia pequenas apresentações de música pelos ônibus e ele logo me convidou para cantar uma música brasileira com ele, eu topei e no outro dia nos encontramos para fazer as apresentações logo pela manhã, cantamos uma música do Falamansa repetidas vezes nos ônibus de Sucre. Os bolivianos que estavam nos ônibus adoravam a música e o sotaque brasileiro, doaram muitas e muitas moedas, foi uma experiência muito divertida e inesperada. E o melhor: uma das cidades que eu menos tinha interesse de ficar acabou sendo uma das que me proporcionou mais experiências.

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Num país onde a gente tem medo até de sair de minissaia, como se livrar dessas amarras que nos prendem? É mais fácil, até por questões culturais, encontrar gringas do que brasileiras na estrada?

Com certeza os riscos para uma mulher sozinha são maiores do que para homens, no entanto, estamos sujeitas a esses riscos o tempo todo vivendo, trabalhando, saindo, em Belo Horizonte, São Paulo, em Bogotá, em La Paz ou em qualquer outro lugar. De fato o mundo é mais cruel para as mulheres e não só nesse sentido mas também quando a sociedade, a mídia e toda a estrutura em que vivemos nos convence desde cedo que não podemos fazer as coisas sozinhas, que não somos forte o suficiente, que somos frágeis e que precisamos de companhia para nos sentirmos seguras.

Acredito que essas questões não deveriam nos impedir de realizar nossos desejos, porque os medos existem e provavelmente sempre existirão de alguma forma, seja dentro da sua cidade ou fora dela e muitas vezes dentro da sua própria cabeça. A opção que temos é a de enfrentar os medos de uma forma consciente e responsável, mas ao mesmo tempo livre e leve para poder aproveitar os momentos e as experiências que surgirem pelo caminho. E sim, acredito que é muito mais fácil encontrar estrangeiras viajando por aqui, conheci pouquíssimas brasileiras em relação a quantidade de européias viajando sozinhas.

Viajar sozinha também é uma ferramenta de empoderamento?

Com certeza é uma ferramenta de empoderamento! Precisamos ocupar os espaços que existem, precisamos exercer nosso direito de liberdade, se temos vontade de viajar por que não o fazer? Viajar sozinha, de alguma forma, nos mostra que somos capazes de realizar nossos desejos, que somos independentes e que não somos frágeis como impunham e pensavam muitas e muitas gerações. É uma ótima ferramenta para que as mulheres se libertem cada vez mais dessa consciência coletiva da nossa total dependência. Em termos gerais precisamos de nós mesmas para colocar o pé na estrada e acredito que essa analogia pode se repetir em outras situações da vida.

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Como era a Angélica antes de viajar sozinha e como ela é hoje?

A minha experiência viajando sozinha me mostrou principalmente que existe muita gente boa no mundo, que quando estamos abertos sempre haverão pessoas legais ao seu lado. Você começa a entender que aqui ou em outro país as pessoas ao seu lado são pessoas como você e o que te separa delas é apenas um oi, um cumprimento. Um gesto mínimo ou uma palavra simples podem ser responsáveis por criar uma conexão inesperada e isso é muito incrível.

Você perde um pouco o medo, ou a vergonha de falar com pessoas desconhecidas, de pedir informação ou de pedir ajuda. Além disso, percebi que estar sozinha te impulsiona ainda mais a criar suas próprias oportunidades, por exemplo se eu queria conhecer gente eu tomava a atitude e conversava com as pessoas, você se torna mais aberto para as oportunidades. Não sei se sou alguém diferente do que era antes da viagem, mas acredito que essa experiência de perceber tudo isso me influenciou muito para a minha vivência hoje em dia.

Viajar sozinha mudou a sua visão, inclusive, sobre o público masculino? Recebeu mais ajuda do que assédio (que também gera medo, etc)?

Na minha viagem conheci muitas mulheres, principalmente européias que reclamavam muito do assédio masculino e minha visão não mudou muito, acredito que ainda existe muito assédio e machismo. Tive a oportunidade de fazer boas amizades com viajantes e nativos, mas no geral, ainda se sente um pouco de medo e apreensão em determinadas situações.

Foi difícil voltar pra casa depois?

Não foi difícil, eu sabia que eu iria voltar quando meu dinheiro acabasse, quando isso aconteceu percebi que já estava na hora e estava muito satisfeita por ter feito tudo o que eu queria fazer, voltei feliz e animada por todas as experiências que vivi.

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O que você aconselha para as mulheres que têm muita vontade de viajar e pouca coragem?

Acho que é legal fazer umas viagens mais curtas para lugares mais próximos primeiro, para ir sentindo como você se comporta nas situações e ir adquirindo a experiência e a confiança de fazer tudo por você mesma. Além disso, na internet existe também grupos de viagens, o site mochileiros que você pode encontrar com gente que está indo na mesma época, várias indicações de pessoas que já fizeram essa viagem e já tiveram a experiência, além do meu documentário que está no youtube disponível para todas que tiverem interesse. E o que posso dizer é que tenham essa coragem! Criem ou inventem ela de alguma forma, porque senão, essa poderá ser a desculpa para nunca sair do lugar.

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Todas as fotos © Angélica Lourenço




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