História Nômade

História Nômade: o que aprendi viajando sozinha e em contato com a natureza

Como nosso objetivo é inspirar, aqui no Nômades Digitais abrimos espaço também para ouvir histórias de pessoas que correram atrás dos seus sonhos e hoje conseguem trabalhar e viajar pelo mundo ao mesmo tempo ou simplesmente decidiram passar um tempo da suas vidas desbravando esse mundão. A convidada de hoje é Fernanda Nicz, que anda trabalhando em ecovilas pelo mundo e contando tudo no projeto Minideias. Conheça a sua história:

Sempre acreditei que, como disse Clarice Lispector, “perder-se também é caminho“. Viver indo e vindo não significa estar perdido, mas estar buscando. Desconstruir-se é ato de coragem e mudar de rumo ou lugar faz parte da busca.

Pois bem, minha vida é uma constante desconstrução e eterna busca. A vontade de mudar e melhorar o mundo fez com que cursasse Direito (pela metade), Cinema e Jornalismo. A vontade de ver e abraçar o mundo me levou, aos 20 e poucos anos, a morar e estudar inglês em Londres. De volta ao Brasil, viver em cidades como Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo – em meio ao frenético ritmo de consumo e trabalho -, fez, aos poucos, crescer a vontade de uma vida contrária a tudo aquilo. A proximidade do minimalismo e da simplicidade nasceu daí; do cansaço e desilusão provocados por um mundo de excessos.

Queria desacelerar, respirar e, ao mesmo tempo, conhecer formatos diferentes de vida. Desejava mais qualidade, sustentabilidade, um “estar” mais consciente no mundo. Comecei a pesquisar e passei a acreditar que é possível, sim, viver da forma que se acredita todos os dias e não apenas nos fins de semana ou nas férias.

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Deste despertar nasceu o projeto Minideias. A intenção é provocar revisão de valores, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades e formatos de vida – de diferentes realidades; um imenso e constante desejo de presentear meu (e outros) olhar(es) com o novo. Daí resolvi unir duas paixões (escrever – para compartilhar cada experiência – e viajar) e, com a facilidade de ter em mãos a cidadania portuguesa, tracei o roteiro (de seis meses entre Portugal e Itália) e agendei estadas em ecovilas e fazendas orgânicas pelos sites da GEN, WWOOF e Workaway.

Porque viajar sozinha?

Conhecer melhor. Estar só e não ter pressa (ter tempo) faz conhecer melhor lugares e pessoas e, principalmente, conhecer melhor a si mesmo. Deixar o olhar se perder e surpreender, encontrar inspiração onde menos se espera. Absorver paisagens/fora e sensações/dentro (encantamento, paixão, medo, solidão, ansiedade). Responsabilizar-se pelo caminho escolhido e construir a estrada que está por vir.

Sardenha

E o que se descobre?

O cronista Contardo Calligaris, em seu texto “O Amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo em nós que não conhecíamos até então”, cita um trecho de uma fábula de José Saramago que bem define a sensação de um viajante: “Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem sou quando nela estiver”. Ou seja, a personagem deseja descobrir quem/como é quando se encontra longe de suas referências/casa/coisas – quando sai da zona de conforto.

Além da desconstrução do ser, a peregrinação incluiu a desconstrução de conceitos, regras e valores arraigados/impostos pela sociedade em que vivia.

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A primeira ecovila

A primeira parada foi no Alentejo, em Portugal, na ecovila Tribodar. Confesso que os primeiros dias não foram fáceis. Banheiro e banho são completamente diferentes do que estava acostumada. Xixi: no mato. Cocô: compost toilet, banho separado; água fria. Dormi em caravana (trailer) – comum em ecovilas e fazendas europeias. Conviver com quem se escolhe e com quem se ama é uma arte, agora, imagine viver com outras 15 pessoas de diferentes idades, nacionalidades, costumes, cultura? Um aprendizado imenso!

Trabalhei no jardim – “senti” a terra, pisei na lama, senti o aroma das flores, a textura das pétalas e das folhas -, pratiquei kundalini yoga, respirei melhor, meditei na natureza, cozinhei em parceria para alimentar a todos, participei de “talking circles” (reuniões para definir tarefas, ações diárias e também compartilhar emoções e sensações), workshops variados, deitei na grama para observar estrelas. Descobri que o ritmo dos dias e das noites flui de maneira diferente quando se está em constante contato com a natureza. O corpo flui em seu ritmo natural e o tempo tem outra dimensão. Conversei em inglês, italiano, “portunhol”, ensinei português. Entrevistei e me encantei com histórias de vida.

O projeto da Tribodar nasceu da vontade de duas pessoas de reinventar a sociedade. Seres que não apenas sonharam e idealizaram um mundo diferente, mas partiram para a prática. Admiro!

Tribodar

A filosofia da permacultura, a vivência em comunidade, o conceito de educação não formal (em que o aprendizado parte da liberdade de escolha da pessoa dentro de um espaço inspirador), o cuidado e o contato com a natureza, com a terra e os animais são preceitos básicos da Tribodar e de outros bonitos projetos que conheci (todos na Itália); Artemisia, Panta Rei, Il Giardino delle Belle, Calajami.

Il Giardino delle belle

Peregrinar como “uma viajante contínua da busca” (como me foi dito em meu mapa astral), mergulhando no mundo, levou-me, de fato, ao “fundo” de mim mesma e aproximou-me de pessoas e lugares que priorizam tal busca.

A viagem durou exatos seis meses. De volta ao Brasil, não consegui ficar muito tempo longe da vida simples em meio à natureza. Visitei, então, o Sítio Amoreza, no Rio Grande do Sul. E, hoje, estou de volta à Tribodar Permacultura, lugar com o qual mais me identifiquei. A ideia/sonho é viver uns meses por aqui e registrar este estilo/forma de vida (dando continuidade ao Minideias) em textos e, quem sabe, num livro.

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Porque tudo isso?

O aumento dos níveis de consumo significa que vamos precisar de DOIS PLANETAS para nos sustentar em 2030. Uma forma mais sustentável de vida tem de ser encontrada.

Assim, a intenção do projeto é provocar reflexão e inspirar mudanças dentro dos paradigmas consumistas das sociedades atuais. Instigar, nos seres, a vontade de observar suas vidas, rever valores, questionar a fundo como se está vivendo e se esta forma de vida não pode, mesmo que pouco, estar afetando negativamente o planeta. Sustentabilidade e qualidade de vida tem tudo a ver com uma maneira mais simples de viver. Uma sociedade mais humana e igualitária, na qual as pessoas priorizem a essência e o essencial e, assim, abram mão, serenamente, de tudo que é supérfluo (e que, posteriormente, é desperdiçado). Seres que compreendam que, com menos, é, de fato, muito mais fácil concentrar-se no que realmente tem valor (para cada um). Paralelamente, demonstrar a importância de misturar-se à natureza – aprender com ela – e esvaziar a mente neste processo/caminho genuíno da busca por mais consciência e plenitude.

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Todas as fotos © Fernanda Nicz e Rael Castro

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Você pode acompanhar o projeto Minideias através do site ou no Facebook.

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