Viagem

História Nômade: como a viagem tomou conta das nossas vidas

Dar vida, em palavras, ao que se sonhou durante meses a fio, os mapas rabiscados a vermelho, as folhas escritas com desejos de países longínquos e as pilhas de livros manuseados daqueles autores que nos fazem ir sem sair do mesmo lugar, nem sempre é tarefa fácil. Ou porque se viveu com tamanha emoção e é difícil fazer jus a isso, ou porque a saudade da estrada fala mais alto, ou então simplesmente porque ficamos parados na memória do que foi. De qualquer das formas, as palavras inevitavelmente falham. Por isso, o melhor é mesmo começar pelo início.

Em 2010, com o curso acabado de terminar e uma mão cheia de vontade de pisar mundo antes de ingressar no suposto mercado de trabalho que a sociedade nos incutiu desde pequeninos, propus ao Inácio que passássemos uns meses fora de casa. Proposta irrecusável para ele, que nesse tempo já fazia das viagens os “ossos do ofício”. Elegemos o país que nos uniu, a nossa versão inacabada do Paraíso e, cansados da rotina do dia-a-dia, sempre igual a si mesma, partimos para a Índia. Queríamos dar a volta às nossas vidas, à nossa maneira de pensar, à nossa maneira de viver, à nossa maneira de namorar, à nossa maneira de estar, ao tempo, sem horas marcadas e sem bilhete de regresso.

Apesar da curta preparação, íamos munidos de um desejo incontrolável de viajar e de levar os outros a viajar conosco. Demos voz à imaginação, chamamos-lhe Dar a Volta e, durante cinco meses e 8 mil quilómetros, percorremos a Índia a bordo de uma Royal Enfield com sidecar de 1966, que tem idade suficiente para ter levado os meus pais à escola. Começámos em Delhi, corremos a costa ocidental até Kanyakumari, o ponto mais a sul, e regressamos pela costa este, por Calcutá, até Delhi novamente. Entre as avarias diárias e alguns instantes de desespero, porque a Índia é assim mesmo, vivemos pessoas incríveis e invulgares, cruzámos paisagens singulares e, pelo caminho, adoptámos uma cadela de rua – a Kashi – que perfez mais de metade do trajecto e regressou conosco a Portugal. No fim, voltamos ao ponto de partida e, apesar de sermos os mesmos, sabíamo-nos diferentes. Queríamos mais mundo e mais estrada nos pés. Queríamos continuar a dar a volta, física e simbolicamente.

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Depois de regressarmos à cidade que nos viu nascer, durante meses a fio, planeámos a linha geográfica que ambicionávamos continuar a percorrer. Desta vez, queríamos dar a volta à América do Sul a bordo de uma Kombi (mais conhecida em Portugal como pão-de-forma). Com o sonho a ganhar forma, começaram a surgir os medos e as dúvidas, tão próprios de quem parte sem saber ao que vai e deixa família e amigos para trás. No entanto, o principal desafio que sentíamos ter de enfrentar era a nossa própria relação. Viver sob o mesmo (reduzido) teto, naqueles 4m2 que caracterizam as apetecíveis Kombi, durante vinte e quatro horas de muitos meses seguidos, põe à prova qualquer tipo de relacionamento entre duas pessoas.

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Assim, em Março de 2013, enfiámos a nossa vida em malas e aterrámos em São Paulo, cidade onde comprámos a Walentina, a Kombi que, durante 13 meses e 35 mil quilómetros, nos levou a percorrer dez países da América do Sul – Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Perú, Equador, Colômbia e Venezuela.

Ao longo de um ano, bebemos de diferentes culturas, aprendemos outro idioma, sem o recurso a aulas ou dicionários, apenas porque o contacto humano o exigiu, fomos até ao fim do mundo, Ushuaia, por entre essas estradas inóspitas e o céu interminável e tão próximo da terra, característico da Patagónia, cruzámos um dos países mais perigosos dos dias de hoje, a Venezuela, e dormimos em terra de ninguém, em cabanas policiais, praias maravilhosas e montanhas de cortar a respiração.

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Não é justo ter de escolher um “melhor momento” de uma viagem quando se regressa a casa. Não é justo para todos os momentos perfeitos e mágicos que se viveram e não é justo para o punhado de gente que marcou esses largos meses mas, no fim, o que de melhor se guarda no bolso da memória são as pessoas, sempre as pessoas. Mais do que os lugares, são as pessoas que fazem as viagens. As que nos abriram a porta de casa sem pedir nada em troca, as que conosco partilharam histórias de vida, as que nos sorriram do outro lado do passeio e nos mostraram de que alma é feito o seu país. São estas mesmas pessoas que nos fazem voltar a casa mais ricos, mais cheios de vida e com vontade de partir de novo.

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Durante 13 meses de pé na estrada, o sonho apoderou-se das nossas vidas mas, no final, a vida é que se apoderou de nós. Partimos dois e regressamos a casa três. Já lá vão seis meses de uma pequena vida que, dia após dia, cresce dentro de mim. Um sonho que nasceu de outro e que, este sim, se tornará na maior viagem empreendida por nós. Durante um ano, demos a volta a um continente maravilhoso e inigualável mas, verdade seja dita, a maior volta foi a que a vida nos deu a nós.

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A Chegada do Dar a Volta:

Para acompanhar as histórias que o casal viveu na América do Sul, siga o site Dar a Volta ou o Facebook.

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