Brasileiros Viajantes

Guia Nômades Digitais: 10 dicas pra conhecer a Cidade do Cabo longe dos clichês

Desde que começamos o quadro Brasileiros Viajantes, em que o objetivo é que brasileiros que vivem em outros países contem suas experiências, aprendizados e motivos pelos quais aconselham (ou não) outros brasileiros a se mudar pra lá, que vários leitores nos pedem que juntemos a isso dicas de viagem. Ideias de roteiro para pessoas que ainda não têm nenhum, lugares escondidos mas imperdíveis pelas cidades, segredos bem guardados, enfim, tudo o que um viajante gostaria de saber antes de partir e que não encontra nos guias turísticos tradicionais. Por isso, nasceu o Guia Nômades Digitais, que esta semana estreia. Depois do Havaí, vamos até à África do Sul com Eduardo Shimahara, mais precisamente até à Cidade do Cabo que não vem em qualquer roteiro.

No final do ano passado, depois de uma semana de trabalho na Suécia, acabei dando uma passada rápida na minha segunda casa – a linda Paris – onde morei por dois anos. Passando para rever alguns de meus lugares preferidos, eu acabava encontrando multidões de brasileiros nos três grandes clichês da Cidade Luz: a Torre Eiffel, o Louvre e a Champs Élyseés. Em outros lugares, como o incrível Canal de Saint Martin, o Instituto Árabe e o pequeno museu L’Orangerie, a realidade já era exatamente o oposto. Nenhum brasileiro se arriscava por ali.

Eu entendo, respeito e também visitei os clichês, mas nem por isso, acho que vale a pena investir todo o seu tempo recheando sua viagem só com isso.

Agora, morando na cidade mais bonita do mundo por mais de dois anos, percebo que o mesmo fenômeno acontece também por aqui. O brasileiro que descobre Cape Town acaba ficando restrito a apenas alguns dos pontos da cidade: o V&A Water Front, a Table Mountain, Boulders Beach e seus pinguins e o Cabo da Boa Esperança (achando que está na ponta mais ao sul da África – só que não !) e depois corre para um safari no Kruger Park.

O que eu proponho aqui é ampliar este horizonte fugindo dos clichês de algumas agências e guias turísticos que fazem questão de entregar só o basicão da cidade. Daria para listar uns 100 roteiros, mas vamos começar com estes 10:

1. Suba a montanha Lion’s Head

Olhando a Table Mountain de frente, você percebe que basicamente três montanhas compõem a principal moldura da cidade. A mais alta de todas à esquerda é Devil’s Peak, a Table Mountain no meio e Lion’s Head à direita. O nome se deve ao fato da montanha lembrar a cabeça de um Leão olhando para o mar, o corpo do Leão seria a colina – Signal Hill, onde dois canhões disparam todos os dias exatamente ao meio-dia. Se estiver por perto, fica fácil saber quem é da cidade ou não. Quando o estrondo dos canhões ecoa na cidade, os Capetonianos olharão para o relógio para saber se marcam a hora exata. Já os turistas, em sua grande maioria olham uns para os outros perguntando “Que barulho foi esse?”.

Mas vamos voltar a Lion’s Head. A subida pode ser feita por pessoas de todas as idades. Trata-se basicamente de uma subida em espiral em torno da montanha, com alguns pequenos trechos verticais – onde você usa as mãos e os pés para subir. No geral, se chega ao topo em menos de 2 horas (recentemente levei minha filha de 6 anos e fizemos o trecho em 1h40min). A grande diferença entre encarar a enorme fila do bondinho da Table Mountain e subir a pé a Lion’s Head está no visual. Do topo dá para se ter uma ideia perfeita de como a cidade está organizada, além de ver ao mesmo tempo a Table Mountain e as lindas praias de Camps Bay e Clifton atrás dela. Se quiser fazer algo ainda mais fora do clichê, suba na noite de Lua Cheia e faça um piquenique lá em cima no pôr do sol. Não existe nenhuma taxa para subir, mas é bom chegar bem cedo durante o verão (algo em torno de 7h30 da manhã) já que alguns Capetonianos sobem a montanha para ver o sol nascer.

CapeTown1De cima da Lion’s Head você vê a parte da frente da Table Mountain

2. O por do sol em Camps Bay

Eu não sei qual o por do sol mais bonito que você já viu, mas certamente, o de Camps Bay vai ficar na sua memória. Quando o sol se põe no oceano, as montanhas (12 Apóstolos) nas suas costas vão passar por tons de amarelo, laranja e vermelho, ao mesmo tempo em que o astro rei mergulha no mar. Estenda uma esteira na areia, leve uma boa companhia (ou vá sozinh@ mesmo), uma garrafa d’água ou suco ou chá gelado (o álcool é restrito em algumas áreas públicas, fique atento à sinalização ou pode ter complicações com autoridades locais) e aproveite a viagem.

CapeTown2Por do sol em Camps Bay

3. Um show em Kirstenbosch

Durante os meses de verão, o lindíssimo Jardim Botânico de Kirstenbosch realiza shows ao ar livre. Prepare uma cesta de piquenique (com bastante vinho e/ou cerveja), estenda uma toalha ou kikoy (um tecido de algodão puro do Kenya, com lindos padrões africanos usado como canga, toalha, echarpe ou mesmo para se agasalhar e companheiro fiel dos Capetonianos) e participe de uma das atividades preferidas dos locais. Os shows em Kirstenbosch trazem bandas do mundo todo, começam pontualmente as 17h30 (é melhor chegar por volta das 16h00, quando os portões abrem, para pegar seu lugar na sombra) e são um verdadeiro acontecimento. Gente bonita, boa música, boa companhia, bons vinhos (os que você levar), tudo num lugar só. Se puder, procure pelos shows de Johny Clegg, sul africano apelidado de “White Zulu”, por cantar em uma das línguas nativas, e que é autor da música Asimbonanga, que fez em homenagem a Nelson Mandela. Clegg lembra um pouco o estilo de Sting e leva multidões para Kirstenbosch sempre que faz um show por lá.

CapeTown3Os imperdíveis shows ao ar livre em Kirstenbosch

4. Assista a um jogo de Rugby no lendário estádio de Newlands

O Rugby é um dos esportes nacionais na África do Sul e tem uma legião de fiéis. A seleção sul africana, conhecida como “Springboks” (ou ainda “bokke”) é a arquirrival da seleção neozelandesa (os mundialmente temidos All Blacks), ambas sempre disputando a liderança do ranking mundial do esporte. O duelo das duas é tão clássico que o filme “Invictus”, de Clint Eastwood, conta a história (real) de como Nelson Mandela usou o Rugby para tentar unir a Nação dividida com o fim do infame regime do Apartheid. Se conseguir ter a chance de ver um jogo desta magnitude “Springboks X All Blacks”, poderá ouvir a multidão cantando uma das canções proibidas antes da democracia – a lendária Shosholoza – e ainda de quebra, assistir a dança guerreira dos Maori que a seleção neozelandesa realiza antes de todos os jogos. O temido Haka. Aqui você consegue sentir um pouco da vibe antes de um clássico destes, com o lindo hino da África do Sul (que tem 4 das 11 línguas oficiais do país) sendo cantado pela multidão seguido pelo temido Haka dos All Blacks.

Se você não conseguir ver um clássico destes, mesmo assim, assistir um jogo dos Stormers (time local de Cape Town que tem a camisa listrada de azul e branco) já vale muito a pena. Saindo do jogo, dois dos Pubs mais tradicionais da cidade são o “Forries” ou ainda o “The Toad and Josephine” que fica literalmente do lado do estádio.

CapeTown4Um clássico jogo de Rugby no Newlands Stadium

5. A roda de Djembe de Mestre Manam

Quase todos os visitantes brasileiros que recebi aqui na Mother City, fiz questão de levar pessoalmente na roda de Djembe de Mestre Manam. Essa roda acontece todo sábado das 15h00 até as 17h00 bem pertinho do cruzamento da famosa Long Street com a Long Market Street, em frente à sua loja “Touareg”. Mestre Manem vem de Gana, país com grande tradição neste instrumento africano presente em muitos dos países do continente – o Djembe. Ali, na frente de sua pequena loja, ele reúne dezenas de veteranos e aprendizes para tocar.

Mesmo que você tenha certeza de que não é capaz, nos primeiros 15 minutos vai estar acompanhando os ritmos mais simples e sentindo a vibração e poder deste instrumento que tem basicamente três tons: baixo, médio e agudo. O instrumento já embalou filmes como o incrível “O Visitante” e, sem dúvida, faz parte da alma musical da África.

CapeTown5

Para participar da roda, é bem simples – chegue no horário (se chegar antes, melhor ainda, você puxa papo com Mestre Manam ou Mestre Aziz que podem te dar dicas pra começar), pegue uma das cadeiras e escolha um tambor (alguns trazem seu próprio Djembe, mas Mestre Manem sempre empresta um) – as dicas aqui são: ficar próximo ao Mestre (se chegar com a roda já rolando, o mestre é aquele com um chocalho de metal no topo do djembe), tirar qualquer anel (que pode rasgar a pele do instrumento) ou objeto de metal das mãos e pulsos, relaxar e ir ouvindo e tocando os ritmos.

Mestre Manam sabe se você é um iniciante ou não só de te ver chegar! E ele vai acertar o ritmo da roda de acordo com o número de veteranos e iniciantes daquele momento. Quanto custa? Nada! É grátis, mas no final, se você quiser e puder, deixe uma doação para ele na cestinha. Eu acho que isso é o básico que você pode fazer por ter tido um workshop de duas horas com um grande Mestre Africano. Eu sempre deixo cerca de ZAR 50,00 (cinquenta Rands ou cerca de US$ 5,00 – cinco dólares) em cada sessão. Quer sentir a vibe ? Olha só:

6. Uma pedalada épica

Pedalar em Cape Town é quase sinônimo de respirar. Junto com as caminhadas em trilhas na montanha, o piquenique, o surf e o vinho, a bike faz parte do dia a dia do Capetoniano. A rota preferida de quem faz road bike é, sem dúvida, o trecho entre Chapman’s Peak passando por Hout Bay e indo até Camps Bay (cerca de 20km). Legiões de ciclistas são vistos nas primeiras horas da manhã (entre 05h00 e 08h00) fazendo este roteiro e, em geral, o motorista sul africano respeita muito o ciclista – especialmente nesta rota. Este trecho da estrada é tido como um dos mais belos da África do Sul, com paisagens de tirar o fôlego. Vale alugar uma bike para fazê-lo pelo menos uma vez. Se você adora bike de estrada provavelmente já sabe que o país tem uma das provas de ciclismo mais tradicionais do mundo, que era conhecida como Cape Argus e recentemente teve seu nome mudado para Cape Town Cycle Tour. Esta pedalada épica de cerca de 110km passa por um roteiro lindíssimo e atrai cerca de 35.000 (trinta e cinco mil) ciclistas do mundo todo anualmente.

Se seu negócio é bike mas… nem tanto, pelo menos participe de uma edição da pedalada da Lua Cheia, a #MoonLightMass. Toda noite em que a Lua está no seu auge, milhares de Capetonianos (e centenas de turistas – embora eu nunca tenha encontrado [email protected] nessa) se reúnem perto do estádio de Green Point para iniciar uma pedalada noturna pela cidade. O roteiro é bem relaxado e a ideia é se divertir. Tem gente que vai fantasiada, gente com luzinhas de Natal penduradas no corpo e ainda bikes com todo o tipo de iluminação que puder imaginar. Saindo de Green Point, o roteiro passa pela orla, para depois subir uma das ruas mais badaladas da cidade – a Long Street – cheia de bares, restaurantes e lojinhas e, finalmente, terminar na Green Market Square. Depois da pedalada (que dura cerca de 1h30 num ritmo bem leve) você pode emendar num dos bares da Long!

CapeTown6Ciclistas se preparam para a #Moonlightmass

7. First Thursdays

Toda primeira quinta-feira de cada mês, lojas e galerias de arte do centro ficam abertas até mais tarde. Em Cape Town, tudo fecha bem cedo (com exceção de alguns lugares), mas nas primeiras quintas, isso é diferente. O movimento First-Thursdays te convida a conhecer a cidade quando a noite cai. Galerias de arte, lojas, intervenções urbanas, food trucks, restaurantes, tudo fica funcionando até mais tarde dentro deste roteiro específico. Destaque pessoal para a galeria Young Blood que reúne obras de jovens talentos emergentes no país e a loja S.A.M. (South African Market) que reúne roupas e objetos de designers emergentes da África do Sul. E não sei se você sabia, mas Cape Town foi eleita a Capital Mundial do Design em 2014 !

8. Truth Coffee

Cape Town é uma cidade cheia de incríveis cafés para começar bem o dia. Um deles, que é um dos meus preferidos, é o Truth Coffee que fica na Buitenkant Street. Além de ser frequentado por parte da “fauna criativa” de Cape Town, a decoração é absolutamente única e me lembra filmes como Mad Max, Waterworld ou coisas do gênero. O local já foi eleito como um dos melhores cafés do mundo e o site Bored Panda teve um artigo dando destaque para a sua decoração.

Construído em torno de uma enorme torradeira de café, o local está ao lado de um dos museus mais importantes da cidade, o District 6 Museum que conta a história do Apartheid através da perspectiva de um dos bairros de onde a população foi expulsa.

Além do District 6, o Truth Coffee fica pertinho também do Castle of Good Hope, uma fortaleza Holandesa que foi mantida e acabou virando também um museu.

CapeTown7O interior do Truth Coffee em Cape Town

9. Jazz

Obviamente, música não poderia faltar neste roteiro, certo? Eu curto muito jazz e por isso trago aqui duas coisas bem bacanas para se fazer na cidade. A primeira delas é ir numa noite de Jazz no “The Crypt”. O nome é este mesmo e isso se deve ao fato deste restaurante de Jazz ficar literalmente no subsolo de uma Igreja famosa em Cape Town ! O “The Crypt” é um lugar muito bacana para comer, beber e ouvir um incrível jazz, mas como é pequeno e a acústica boa demais para os músicos, pode não ser um ótimo lugar para grandes conversas.

Se sua ideia vai alem do Jazz num restaurante, eu recomendo o tour com o pessoal de uma agência sensacional que te leva para conhecer os incríveis músicos de Jazz que muitas vezes moram nas townships (favelas) de Cape Town. O “Jazz Safari” te leva para encontrá-los pessoalmente e ter uma experiência musical absolutamente incrível. Escreva para o Iain Harris (dono da agência) e peça um desconto. Já fizemos tanta coisa juntos que ele se tornou um grande amigo e é muito gente boa!

10. Woodstock

Um bairro um pouco mais retirado do centro reúne muita coisa bacana. Woodstock (nome sugestivo, não?) gira em torno de um antigo moinho onde eram fabricados biscoitos. No bairro se encontra o restaurante número 1 da Africa do Sul, o “The Test Kitchen” onde você pode ter uma ideia do que os ingredientes locais são capazes de produzir. Além do Test Kitchen, outros incríveis restaurantes, lojas e galerias, acabaram adotando o bairro. Passe um tempo caminhando pelo local e entrando nas lojas. Algumas lojas tem segredos bem guardados, como é o caso do pequeno restaurante e café “Raw and Roxy” que só serve alimentos crus que podem te surpreender e que fica nos fundos de uma das lojas do bairro.

CapeTown8O Old Biscuit Mill que é o centro vibrante do bairro de Woodstock

Pra terminar, acho que vale a pena dizer que sem dúvida África sem safari pode ser algo como Paris sem Torre Eiffel, certo? Então neste caso, fica uma última dica que pode te interessar. O clássico Kruger Park, sem dúvida, é incrível com suas grandes manadas e extensas savanas. O “problema” está no “extensas”.

Por ser uma área enorme e você ter prometido pro seu filho ou namorada que el@ ia ver uma girafa, talvez voltem frustrados. A natureza é imprevisível e o Kruger não é um zoológico (ainda bem que não). Você pode passar um dia inteiro a bordo de um Land Rover no safari e não ver animal nenhum e, no dia seguinte, ter a incrível sorte de ver os Big 5 (leão, elefante, rinoceronte, búfalo e leopardo) em menos de uma hora.

Porém, caso tenha pouco tempo (algo como dois ou três dias), talvez valha estudar a possibilidade de visitar uma das reservas próximas ao Kruger. São reservas privadas, imensas, onde os animais vivem livres e com pouquíssima interferência, mas onde a chance de ver, pelo menos, uma girafa pode ser bem maior.

CapeTown9Chisomo Safari perto do Kruger Park

CapeTown10Cape Sugar Bird na subida da Lion’s Head

CapeTown11Blyde River Canyon  – uma das paisagens mais belas da África do Sul – próximo ao Kruger Park

CapeTown12O perfil de Cape Town com Devil’s Peak a esquerda – Table Mountain ao centro e Lion’s Head a esquerda

CapeTown13A pedalada entre Chapman’s Peak e Camps Bay dá direito a visuais como este

CapeTown14Afternoon Kommetjie

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Para saber mais sobre Eduardo e seu trabalho, siga o link no Facebook do coletivo educ-acao ou descubra o mestrado no Sustainability Institute.

Todas as fotos © Eduardo Shimahara

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