História Nômade

História Nômade: como a jornada em busca da Aurora Boreal mudou minha vida

Como nosso objetivo é inspirar, aqui no Nômades Digitais abrimos espaço também para ouvir histórias de pessoas que correram atrás dos seus sonhos e hoje conseguem trabalhar e viajar pelo mundo ao mesmo tempo ou que, simplesmente, decidiram passar um tempo da suas vidas desbravando esse mundão. O convidado de hoje é Marco Brotto, um curitibano que decidiu começar uma odisseia bem especial: uma série de expedições para ver e fotografar “a dama da noite”, o incrível espetáculo natural a que chamamos Aurora Boreal.

Era outubro de 2007. Eu estava com dois amigos no Death Valley (EUA), um dos lugares mais quentes, secos e inóspitos do mundo e com um céu espetacularmente limpo e lindo. Tudo bem – mas e o que isso tem a ver com Aurora Boreal?

Foi nesse dia, depois de tentarmos ficar em silêncio durante um minuto para contemplar o céu, que um de meus amigos, o Fábio, falou do nada: “Se o céu já é lindo assim, imagina com aquelas luzes que dançam no céu no Polo Norte? Vou pesquisar sobre isso quando voltarmos ao Brasil.” “É a aurora boreal”, complementou o Presunto, apelido do Fernando.

Assim começou a minha paixão pela Aurora Boreal.

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Depois de algum tempo, encontrei um pacote de cruzeiro para o Alaska que custava menos de 100 dólares por dia (hospedagem, alimentação e transporte). Comprei e avisei o Fábio. Dias antes do embarque, por um motivo profissional, ele não pode embarcar e fui sozinho para “as férias frustradas no Alaska”. Resumo: não vi nada. Só choveu. O lugar e época estavam errados e nada deu certo. Por meses, o assunto ficou em stand by e outras viagens acabaram acontecendo.

Em 2011, enfim, ocorreu a oportunidade de ir para Noruega, mais precisamente para Tromso, a famosa capital da Aurora Boreal, as luzes do norte. Me programei bem, tudo bem esquematizado, guias pagos e muita vontade. Na minha cabeça, era chegar lá e olhar pra cima, que, como uma chavinha na parede, se ascendia a Aurora e a noite toda ficaria vendo a dança das luzes.

Cheguei em Tromso com -17 graus Celsius, tempestade de neve e um aviso no hotel que as caçadas a Aurora estavam canceladas. Xinguei o guia até ultima geração (Gunnar acabou ficando meu amigo e cada vez que vou para lá nos encontramos) e fiquei desnorteado.

Na manhã seguinte fui até o bureau de turismo atrás de uma boa notícia. A melhor que recebi foi que existia um ônibus de linha, que viajava por oito horas até um porto, de onde se pega um navio que ‘corta’ os fjords. Havia uma chance de a tempestade estar mais fraca naquela região e, talvez, eu conseguisse ver. Partiu busão!

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Mas não deu em nada. Nunca tinha visto tanta neve. O ônibus atrasou horas. Eu estava esgotado pela viagem e pela tensão de não ver a Aurora novamente. ‘O que eu vim fazer aqui?’, pensava.

Estava tão cansado que no navio dormi com a testa no tripé da câmera. Algum tempo depois ouvi alguns gritos e, quando cheguei na parte externa do navio, vi uma manchinha no céu. “Que merda!”, pensei. “Não é possível esse sofrimento todo para essa merreca.”

Voltei ao hotel e aluguei um carro para, pelo menos, aproveitar o dia andando pelas estradas congeladas. Sempre gostei de lugares frios e tenho milhares de km dirigindo na neve, mas de qualquer forma, é uma condição muito diferente para nós brasileiros e tenho muitas regras para pegar a direção. Então só andaria de carro durante o dia. A noite tentaria no bureau outro passeio para tentar ver a Aurora.

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Era minha última noite na Noruega.

Nada de Aurora, frustração enorme mas ainda muita vontade. Peguei uma van e quando entrei na bendita me senti um astronauta. Todo equipado com roupas para suportar a temperatura que estava muito baixa, tripé, câmera, etc., entrando numa van com diversos chineses com câmeras pequenas e todos sem agasalho suficiente. “Em que P*** de lugar me meti?”. Olha, eu nem falo tanto palavrão assim, mas a situação era lamentável.

Fomos em direção ao norte, lugar que hoje depois de muitas viagens conheço como a palma das mãos. Ficamos a -17 graus por muitas horas e nada. Com minha câmera regulada, conseguia ver algumas manchas verdes e fiquei durante horas tentando algo, mas todos os outros não tinham máquinas com configuração suficiente. Depois de muitas tentativas, conseguiram me convencer a voltar para a van e retornamos. A volta foi penosa e todos vinham dormindo. Eu, como de costume, fiquei anotando as rotas, placas ou alguma informação do local. Até que de repente um russo que estava ao meu lado começa a gritar. Pensei: “pronto, o maluco agora vai sequestrar a gente”.

Que nada!

Ele tinha visto a Aurora

Levantei rápido, saí correndo pelo meio da van dando com o tripé na cabeça de todo mundo e, com meu norueguês fluente, falei: “para aí, seu motorista”. Ele estacionou e pudemos ver mais um pouquinho de Aurora. Mas eu ainda estava muito decepcionado. Minhas intenções estavam longe de serem atingidas.

Voltamos ao hotel. Eram três horas da manhã e decidi pegar o carro e fazer o caminho que tínhamos feito, mas as condições eram ruins. Paisagem escura, muita neve nos acostamentos e eu estava infringindo uma regra minha de viagem: dirigir sozinho de carro na neve a noite. “Mas dane-se”, pensei. Era aquela hora ou nunca. Após rodar alguns km’s, vi uma placa com o nome de um fjord que me pareceu simpática e entrei. Eram apenas algumas casas naquele pitoresco estilo escandinavo. Parei o carro, desci e montei o tripé no meio da rua.

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Do nada, o céu ficou verde! As luzes corriam de um lado para outro de maneira frenética. Eu via reflexos das luzes na neve e as águas dos fiordes refletiam a aurora magnifica sobre minha cabeça. Parecia um monstro verde querendo me abraçar e tive medo. Depois, parecia um anjo querendo que eu voasse com ele e tive vontade de chorar (na verdade, chorei) e fiquei realizado e encantado. Fiquei quase uma hora contemplando aquilo tudo, até que ela foi embora, mas não sem antes deixar em mim um sentimento enorme de busca de objetivos e compartilhamento.

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Na volta ao hotel fui pensando na quantidade de pessoas que nunca ouviram falar em Aurora Boreal, que nem sabem que aquele espetáculo existia. Pensei naqueles que sonham em ver e não têm a oportunidade e naqueles que, como eu, viajaram muito e não conseguiram. Depois da primeira vez, veio a segunda, a terceira… Semana passada voltei da minha 15ª caçada em busca das Auroras Boreais. A cada vez me emociono, me renovo e tenho mais vontade de compartilhar coisas boas.

A Aurora me ensinou a ter uma vida mais espartana, mais consciente dos cuidados com a natureza e a ter um pouco de noção da nossa relação com o tamanho do cosmos. Me mostrou que, da mesma maneira que posso ser frágil diante da grandiosidade e força da natureza, posso ser um guerreiro e vencer muitos medos e desafios e, principalmente, a encontrar o equilíbrio entre correr atrás de um sonho freneticamente e ser racional e saber a hora de parar realinhar os objetivos.

A Aurora Boreal e sua grandiosidade me ensinaram, enfim, a ser mais gente. A me colocar no lugar dos outros em situações críticas e tentar ser a cada dia uma pessoa melhor.

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Todas as fotos © Marco Brotto

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