Brasileiros Viajantes

Brasileiro viajante já construiu 210 casas, 4 escolas e segue em trabalhos voluntários pelo mundo

Ele saiu de Natal para, inicialmente, um intercâmbio de seis meses na Irlanda. O que não dava para prever é que a viagem se esticaria por sete anos, cruzaria fronteiras e tomaria rumos como a dedicação ao trabalho voluntário. O aventureiro Danniel Oliveira já ajudou a construir 210 casas e quatro escolas ao redor do mundo, distribuiu alimentos para refugiados e, entre tantas outras coisas, impactou a vida de muita gente com seu espírito solidário.

Por onde o brasileiro passa, um legado é deixado para a comunidade que mais precisa. É isso o que torna sua jornada tão inspiradora. Olhando suas fotos, fica muito claro o quanto ele mudou, do cabelo à roupa que usa. Mas agora imagina o quanto tantas experiências enriquecedoras e multiculturais conseguiram transformá-lo por dentro.

E engana-se quem acha que é preciso atravessar milhas para fazer algo significativo. No Brasil, Danniel começou o trabalho em comunidades carentes, trazendo recursos como dentistas, assistência jurídica, aulas de computação, entre outros suportes; além de distribuir alimentos para moradores de rua.

Na Índia, ensinou inglês para crianças e mulheres, dava aula de computação e aplicava jogos. Na primeira visita ao Nepal trabalhou num asilo, cuidando da higiene e alimentação de idosos; já na segunda ida ao país, logo após o terremoto que aconteceu em abril de 2015, ajudou a reconstruir casas, escolas e também na compra e distribuição de alimentos.

No inverno da Mongólia cuidava da alimentação e higienização de animais, em temperaturas que chegaram a 45 graus negativos. Na Rússia, esteve em orfanatos e escolas de Vladivostok; fez trabalho voluntário numa escola de inglês na Chechênia, em Grozny, até chegar no Iraque recentemente, onde distribuiu alimentos para refugiados de guerra e trabalhou num hospital que cuidava de crianças com câncer. Com muitas histórias para contar, ele conversou comigo sobre suas experiências e planos futuros.

Nômades Digitais: Você saiu de Natal a seis anos atrás para se jogar no mundo e chegou até 60 países. O que mudou na sua vida desde então?

Sair do Brasil para aprender um novo idioma acabou se tornando a decisão mais importante que já tomei na minha vida. O que era pra ser uma experiência de 6 meses, está chegando a 7 anos, e aconteceram coisas que eu nunca poderei prever. Pois meu conhecimento de mundo e de vida era tão limitado, que eu não conseguia enxergar o que poderia fazer ou aonde poderia ir.

Bem, além dos países, cidades e pessoas incríveis que conheci nesses últimos anos, acredito que hoje me conheço mais profundamente como ser humano, sei o que quero e o que não quero fazer, e aprendi que não devo perder tempo com o que não me traz felicidade.

ND: Por que optou pelo trabalho voluntário? Seria para sair, literalmente, da zona de conforto?

Sempre tive conexões com trabalhos voluntários. Na época de faculdade fazíamos projetos em vilas carentes, levando recursos que aquelas pessoas não tinham acesso; participava também da distribuição de alimentos para moradores de rua; e sempre disponibilizei meu tempo para ajudar pessoas.

Além disso meus pais são super engajados em diversos projetos sociais na cidade de Natal-RN, onde eles moram atualmente, então ajudar o próximo sempre fez parte diretamente ou indiretamente do meu dia a dia.

A experiência internacional como voluntário aconteceu após enxergar que viajar só por viajar não me trazia mais a satisfação que eu gostaria de ter pelo fato de estar viajando, então há 4 anos atrás fui pra Índia e Nepal como voluntário e me encontrei como viajante e como pessoa. Foram experiências incríveis. No Nepal trabalhei com idosos e na Índia com crianças e mulheres. Retornei para casa com a certeza de que aquela seria a primeira de muitas outras experiências.

Na Irlanda, quando a ideia começou…

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ND: Muita gente tem essa ideia de ir pra longe ajudar o próximo, quando na verdade temos muito o que fazer aqui mesmo, no Brasil. Fazer trabalho voluntário por aqui ajudou a abrir seus olhos para essa possibilidade? Em qual região do país você atuou?

Essa é uma pergunta interessante, pois muita gente acha que é necessário ir pra longe ou se ter dinheiro sobrando pra fazer algo por alguém. Na verdade, o trabalho voluntário pode ser feito seja lá onde você estiver. Orfanatos, comunidades carentes, asilos, existem em todos os lugares, e eles estarão sempre abertos para aqueles que querem ajudar.

Acredito que o que essas pessoas mais precisam e sentem falta é do contato com outras pessoas, do calor humano, elas querem que conversem com elas, contem histórias, venham com música e dança pra animar o ambiente, jogos para passar o tempo, ensinar a cozinhar e por aí vai, não existe um padrão do que pode ser feito, tudo é possível. Temos que entender que as pessoas que vivem nesses lugares, na maior parte do tempo estão tendo a mesma vida, com a mesma rotina, com as mesmas pessoas.

Desta forma a presença do voluntário com certeza não só tornará aquele dia mais feliz com também trará a esperança de que dias melhores virão. Minha experiência no Brasil foi no Nordeste, na cidade de Natal, onde morei 10 anos após minha saída de Brasília.

ND: O Nepal é um lugar especial para você, onde tem amigos e ajudou a reerguer o que foi levado pelo terremoto. O que viveu de mais legal por lá?

A minha segunda visita ao Nepal foi com certeza a experiência mais incrível que já vivi até hoje. Após o terremoto, um dos meus amigos que foi meu guia na minha primeira visita ao país, me mandou uma mensagem dizendo que não tinha mais casa, nem trabalho e que precisava de ajuda. Como eu já estava me organizando financeiramente para dar a volta ao mundo, após sua mensagem, pedi demissão e decidi que começaria minha viagem ajudando a reconstruir a casa desse meu amigo.

Cheguei no Nepal poucos dias após o terremoto. Como o assunto estava em alta na mídia, e os terremotos eram diários, comecei a compartilhar fotos e vídeos do que eu estava vivendo, e pedir para que as pessoas ajudassem com doações, assim poderia ajudar mais pessoas.

Acabou que se tornou um grande projeto, e consegui arrecadar fundos para reconstruir 210 casas temporárias, 4 escolas para 976 crianças retornarem às aulas, e compramos também 14.000 kg de arroz. A internet tem um poder incrível de ajudar a propagar o bem, quando utilizada da maneira correta.

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ND: Algo semelhante aconteceu recentemente no Haiti, país este que tem inúmeras dificuldades. Já pensou em ir pra lá?

Haiti é um local que precisa de muita atenção e cautela para quem pretende ir como voluntário amador, que é o meu caso (pois não sou médico, enfermeiro, engenheiro…). Acredito que seja necessário fazer bons contatos antes de ir, para ter certeza que estará apto para ajudar ao invés de se tornar mais um a precisar de ajuda.

Tenho interesse total de ir para locais onde a minha ajuda e os meus contatos ao redor do mundo possam contribuir de alguma forma a trazer melhorias para uma ou mais pessoas. Espero que as coisas melhorem o quanto antes pelo Haiti, mas acredito que irei sim numa próxima oportunidade.

ND: Você chegou até o Iraque, um lugar que só pelo nome já assusta e espanta muita gente. Me conta o que viu de mais fascinante por lá e o que gostaria de não ter visto.

Fiquei no Iraque por 4 meses, trabalhando como voluntário para uma ONG que tem projetos ligados a ONU e UNICEF, então tive a oportunidade de participar de grandes ações e ver muita coisa boa sendo feita. Trabalhei em diferentes setores, tais como: cadastramento de famílias para os campos de refugiados; distribuição de alimentos para mais de 80 mil pessoas por mês; visita as moradias dos refugiados para analisar quais eram suas necessidades básicas, sendo assim um dos projetos da ONU, o UNHCR, poderia enviar os recursos que eles precisavam; também ajudei em trabalhos internos dentro do departamento de mídia da ONG, onde criávamos material de videos para encaminhar para ONU, UNICEF e demais parceiros.

Estes trabalhos foram bem legais e deu pra conhecer muita gente bacana e ter experiências incríveis não só com voluntários do mundo todo, como também com os refugiados que vinham da Síria, Irã e sul do Iraque. Aproveitei meu tempo livre para explorar ao máximo a área, então acabei conhecendo mais de 20 cidades, acampei, subi montanhas, nadei em lagos e rios, visitei uma das casas do Saddam Hussein, fiz caminhadas em montanhas com minas terrestres. Foi uma experiência super intensa e incrível, pois o norte do Iraque, o Curdistão, é uma área com lugares maravilhosos de se visitar, além de ser uma área teoricamente segura.

Uma das coisas que não gostaria de ter visto foi a maneira como a mulher é tratada nesta comunidade, não só entre os refugiados, mas também nas cidades e grandes centros. Infelizmente eles estão bem distantes de terem direitos iguais entre homens e mulheres.

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ND: Estar próximo a refugiados mudou a sua percepção sobre o assunto ou sobre a vida? Consegue dividir alguma história/situação que partiu seu coração?

Acredito ter lapidado internamente um pouco mais o que realmente importa para mim como ser humano. Muitas vezes priorizamos coisas que são tão banais e que não acrescentam nada em nossas vidas e estar submerso numa realidade como aquela me fez rever muitos dos meus conceitos. Além do trabalho com refugiados, fiz também trabalho num Hospital que tratava crianças com câncer.

Um dia, conheci dois irmão fazendo tratamento contra a doença, eles eram refugiados de Baghdad e estavam morando em Sulaymaniyah, ambos com 5 anos de idade. Enquanto brincávamos na área de lazer do hospital, uma senhora completamente coberta estava ao nosso lado sem emitir nenhum som, eu não conseguia ver nem mesmo os seus olhos. Acreditava que ela fosse a mãe dos meninos.

Após algumas horas de diversão, eles tinham que voltar para o seu quarto, foi quando uma das médicas me disse que aquela senhora era a tia dos meninos, ela era a responsável legal deles, pois terroristas haviam invadido a casa que moravam, mataram pai e mãe das crianças e fizeram questão de deixá-las vivas. Aquela história mexeu muito comigo, tirou o meu sono por alguns dias, pois além da doença que ambas tinham, elas ainda teriam que conviver com toda essa tragédia que tirou a vida de seus pais. 

ND: Ficar no meio de situações de risco te trouxe benefícios? Sentiu medo? Houve alguma vez em que pensou em desistir?

Nunca pensei em desistir. Eu estava super feliz de poder me proporcionar aquela experiência e poder fazer algo a mais para aquelas pessoas. Os maiores benefícios que vejo, foram os amigos que fiz e as experiências que vivi. Valeu a pena cada segundo que estive no Iraque. Posso afirmar que só tive uma experiência onde tive medo, foi na cidade de Kirkuk, onde tínhamos que visitar uma vizinhança que não havia policiamento nem exército fazendo a segurança, pois membros da ISIS moravam e comandavam aquela área.

Era um trabalho de urgência, pois haviam famílias passando necessidades, então tínhamos que levantar algumas informações de forma ágil e trazer então os recursos necessários. Uma das casas moravam mais de 8 famílias num total de 65 pessoas, entre elas conheci um rapaz que me contou que estava tentando fugir de sua antiga casa quando os terroristas invadiram sua vila, ele levou um tiro nas costas e seu irmão e tio acabaram não tendo a mesma sorte de sobreviver e acabaram morrendo ao seu lado.

Ele levantou sua camisa e me mostrou a marca da bala que atravessou sua barriga pelo lado da frente. Foi um dia cheio de emoções, pois sabia que qualquer coisa poderia acontecer.

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ND: Acho interessante que em cada país você fez um trabalho diferente. Quais foram os principais aprendizados?

Tento diversificar o máximo o tipo de trabalho voluntário, para que com isso tenha diferentes aprendizados e quem sabe um dia posso estar apto a ajudar nas mais diversificadas situações. Aprendi e continuo aprendendo que o mais importante para essas pessoas é o tempo que você dedica a elas. A alegria que você traz, o amor que você compartilha, é contagioso, e elas deixam claro através de ações, o quanto estão felizes por você estar ali.

O sorriso no rosto das pessoas que já ajudei; um abraço demorado; um senhor carregando telhas para sua casa destruída, olhando para trás e dizendo obrigado; a mãe de uma criança chorando no meu ombro; entre muitas outras lembranças;  são a certeza de que tudo que fiz está valendo e continuará valendo a pena.

ND: Você se considera um nômade digital? Como foi a transição de um trabalhador-normal para um cidadão do mundo?

Estou há 1 ano e meio na estrada, acredito estar iniciando nesse mundo de nômade digital, com muita coisa ainda pra aprender.  Escrevo pro canal Próxima Parada no Facebook, Instagram e Youtube, e é como se fosse um filho pra mim, pois diariamente cuido, alimento com informações, respondo a todas as perguntas, e estou sempre buscando os melhores caminhos para que cresça de forma saudável e feliz. Recebo quase que diariamente mensagens que me inspiram a continuar com essa longa aventura.

Bem, passei 2 anos me organizando financeiramente pra minha viagem ao redor do mundo. Nos últimos meses de trabalho, não via a hora de partir e me jogar de cabeça nessa vida sem rotina, com pouco planejamento e com um universo inteiro de pessoas e culturas a ser descoberto. Depois que entreguei a chave do meu apartamento e fechei a porta de casa, sabia que a partir daquele minuto, o mundo inteiro faria parte do que eu chamaria de casa.

Me adaptei fácil, mas ainda hoje me pego sem entender de como fui parar em determinados lugares que eu nunca imaginaria que existia. Está sendo uma experiência que vai mudar todo o meu futuro e tento viver de uma forma onde não quero ter arrependimentos de nada que fiz ou deixei de fazer. Afinal, a viagem hoje é a minha vida o meu dia a dia.

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ND: Como você se sustenta? Ainda usa o dinheiro das suas economias de viagem?

Fui gerente comercial e de marketing de uma empresa na Irlanda, onde consegui me organizar financeiramente para ter uma boa reserva. Mesmo assim, sou grato por ainda ter ajuda dos meus pais, que acreditam nesse meu projeto e estilo de vida, e me incentivam financeiramente e emocionalmente a continuar com a viagem.

ND: Qual foi a sensação que veio à tona depois que largou um emprego estável para seguir seus próprios passos?

Acredito que nossas vidas são feitas de fases. Tive a fase dos estudos, depois vieram os estágios, primeiros trabalhos, intercâmbio, mais trabalhos e agora estou vivendo a experiência de viajar o mundo.

A sensação é de que esta fase é apenas mais uma experiência que precisa ser vivida com intensidade e sabedoria, mas que um dia vai passar para que outros caminhos sejam tomados, outros sonhos realizados e outros objetivos alcançados.

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ND: Rodar o mundo é uma coisa que todos querem, mas nem todos podem. Viajar tem a ver com escolhas ou com recursos?

Para o estilo de viagem que escolhi fazer, foi extremamente importante que as minhas escolhas estivessem trabalhando lado a lado com o levantamento de recursos que me proporcionaria a viagem.

Muitas pessoas querem trocar de carro, ou dar entrada num apartamento, pagar pelo casamento, e por ai vai, mas no meu caso, o meu foco quando trabalhava era total e integral para a realização do meu sonho de viajar o mundo.

Me recordo que eu utilizava meu tempo livre para estudar mapas, ler livros de outros viajantes, assistir videos de pessoas que estavam na estrada, participar de seminários de viagens, conversar com pessoas que haviam viajado, preparar o meu corpo para longas caminhadas, montanhas e por ai vai. Ou seja, acredito ter feito as escolhas certas durante a preparação, para quando tivesse recursos suficientes, pudesse partir, e assim foi feito.

ND: Pretende voltar ao Brasil? Quais são as próximas paradas?

Estarei no Brasil em Dezembro, Janeiro e provavelmente Fevereiro, onde dedicarei tempo a minha família e amigos, e aproveitarei para fazer palestras e seminários sobre viagens e trabalhos voluntários em diferentes estados do nosso país. A ideia é fazer um bate papo levado mais para o lado motivacional, onde relato através das minhas experiências com viagens e voluntariado, que alcançar os nossos sonhos é totalmente possível, quando se sabe para onde quer ir.

Trago também a mensagem de que ajudar o próximo pode ser feito de qualquer lugar que você estiver, portanto comece hoje mesmo a ajudar alguém. Acredito assim estar fazendo a minha parte propagando o bem e buscando ter mais e mais pessoas disponíveis para ajudar o próximo correndo atrás dos seus sonhos.

Após minha temporada no Brasil, provavelmente voltarei para o extremo leste da Rússia, onde estarei estudando Russo, pretendo ter alguma experiência profissional e explorar ao máximo o maior país do mundo e o leste asiático.

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Todas as fotos © Danniel Oliveira

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