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Brasileiro leva prêmio no maior concurso de astrofotografia do mundo e dá dicas para iniciantes

O céu estrelado encanta muita gente e, com ajuda do olhar fotográfico, fica mais bonito ainda. Com este fascínio estelar, o fotógrafo brasileiro Carlos Fairbairn acabou ganhando um prêmio no célebre concurso ‘Astronomy Photographer of the Year’, que é realizado pelo Royal Greenwish Observatory, em Londres e apontado como o maior concurso de astrofotografia do mundo.

Morador do Rio de Janeiro, Kiko, como é chamado, é formado em administração e como hobby faz imagens de objetos do céu noturno, que por fim o levaram a vencer a categoria ‘Sir Patrick Moore Best Newcamer’, que premia o fotógrafo que faz imagens astronômicas há menos de dois anos e homenageia um dos maiores divulgadores de astronomia e ciências do mundo, Sir Patrick Moore. A imagem premiada, que estará disponível no livro do concurso, mostra a Grande Nuvem de Magalhães, clicada em Luziânia, Goiás, em agosto de 2015, com uma Canon EOS 5D Mark III.

O tato para a fotografia também fez com que seu nome aparecesse no site da NASA algumas vezes e em publicações importantes como a revista BBC Sky at Night e a Scientific American Brasil. Com imagens incríveis que capturam até o que não conseguimos ver a olho nu, Fairbairn me contou sobre suas experiências entre outras galáxias, o fato de estarmos tão desconectados dos acontecimentos astronômicos e naturais, e de como suas fotos são feitas, deixando algumas dicas para quem deseja, assim como ele, explorar o universo sem tirar os pés do chão.

Nômades Digitais: Você é formado em administração. Como veio essa paixão em fotografia que resultou até em prêmio?

Já fotografava por hobby, mas apenas imagens diurnas.  No fim de 2014 despertei para a astrofotografia. Atentei para a grande sensibilidade que as câmeras atuais possuem – vão muito além do olho humano- e que isso poderia gerar resultados interessantes se usada em locais escuros, livres de poluição luminosa. Astronomia foi um tema presente em minha infância, acompanhando as leituras de meu pai sobre o tema.

A primeira vez que estive em um céu realmente escuro foi no início de 2015. Fui com dois amigos ao Parque Nacional de Itatiaia. Meu equipamento nesse momento era o mais simples possível: tripé e máquina fotográfica. Fiquei muito impressionado com o que a câmera conseguia captar, muito além do que meus olhos podiam ver ao vivo. Fiquei completamente fascinado pela astrofotografia nesse momento. Sites e blogs de brasileiros sobre o tema da astrofotografia aguçaram ainda mais minha curiosidade.

ND: Qual foi a primeira coisa que passou na sua mente quando ganhou o prêmio mais importante da astrofotografia?

Me senti honrado por estar sendo premiado em um evento que me inspirou no passado. Eu tenho duas edições de anos anteriores dos livros impressos desse mesmo concurso. É gratificante ter uma imagem minha no livro de 2016.

A foto que rendeu o prêmio: Grande Nuvem de Magalhães em Luziânia - Goiás (lente 200mm)

A foto que rendeu o prêmio: Grande Nuvem de Magalhães em Luziânia – Goiás (lente 200mm)

ND: O que a astrofotografia pode promover?

Percebo claramente a astrofotografia sendo um enorme impulsionador de meu desenvolvimento pessoal e tenho certeza que pode fazer o mesmo para milhares de pessoas. Cada objeto ou fenômeno que fotografo cria um grande estímulo ao aprendizado. Poder fazer imagens de galáxias com milhões de anos-luz de distância, nebulosas coloridas, fenômenos cósmicos e aprender sobre cada um deles é algo mágico. É um clico de aprendizado riquíssimo.  A astrofotografia é a porta de entrada pra esse mundo do impossível real.

Penso que a astrofotografia pode ser um vetor de estímulo para os cientistas brasileiros do futuro. Uma criança que veja uma foto de uma galáxia ou que ela mesma produza essa fotografia nunca mais vai perder essa sensação de completude e inserção que o aprendizado sobre astronomia proporciona.

A observação astronômica também tem um potencial gigantesco nesse quesito de aprendizado. Já vi inúmeras pessoas chorando ao verem os anéis de Saturno pela ocular de um telescópio. São experiências muito fortes, que podem acender o estimulo do aprendizado em muitos jovens e adultos.

Não nos esqueçamos de que os átomos que compõem nossas proteínas, enzimas, vários processos e por fim todo o corpo humano foram estes forjados dentro de estrelas. Carbono, Oxigênio, Fósforo, Potássio, Ferro, entre outros, foram formados durante o processo de vida estrelas, muitos desses elementos criados quando as estrelas morrem, em suas gigantescas explosões energéticas chamadas de Supernova. Muito dos tijolos atômicos que nos formam foram forjados nesses eventos. Conforme o célebre Carl Sagan mencionou em duas citações magistrais, “somos poeiras de estrela” e, consequentemente, ao fazermos astrofotografia “somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo”.

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ND: Você é uma pessoa noturna? Sua produtividade é melhor a noite?

Sim, produzo muito à noite. Gostaria de ser mais diurno, mas a calma noturna é imbatível para edição de imagens de astrofotografia e leituras.

ND: Quando começou a viajar para fotografar? Se considera um nômade digital?

Comecei em 2012, quando estive no Deserto do Atacama pela primeira vez. Recomendo muito aos leitores. As paisagens são magníficas. Por ser uma região muito seca torna-se fantástica para observações astronômicas também.

“Nômade digital” possui alguns ângulos de interpretação. Em um deles sou 100% esse nômade que transita por diversas fontes de informação e conhecimento espalhados pelos quatro cantos da internet. Fisicamente acho que ainda não consigo executar trabalhos em qualquer local do mundo. Essa ideia, entretanto, é incrível. Espero ser um Nômade Digital por completo um dia!

ND: Acredito que o universo ou a astronomia estão entre seus assuntos favoritos. Você disse que essa atração vem desde a infância. Como desenvolveu esse gosto? Amar seu trabalho faz toda a diferença?

Percebo que sempre fui muito curioso. Sempre me dedico bastante aos assuntos que me interessam. Com astrofotografia não foi diferente. É um hobby muito completo. Gosto do ambiente físico de se estar em uma noite repleta de estrelas, gosto do envolvimento com processamento das imagens no computador, gosto da troca que tenho com os colegas de hobby –com os quais aprendo muito-  e me motivo com o fato da astrofotografia poder influenciar outras pessoas a se interessarem pelos assuntos que envolvem astronomia e ciências.

Amar o que se faz traduz-se pela dinâmica percebida quando algo negativo ou positivo acontece. Quem ama debita pouco quando algo errado e fora do planejado ocorre e credita muito quando algo positivo e bacana surge. Acho que esse é o princípio do famigerado amor. As noites nubladas e frias são esquecidas. As noites produtivas, celebradas ao máximo!

Parque Nacional Yellowstone no EUA (lente 24mm)

Parque Nacional Yellowstone no EUA (lente 24mm)

ND: A proximidade do céu e das estrelas o faz acreditar que não estamos sozinhos?

A intimidade que acabo tendo com o céu noturno, estrelas, galáxias, nebulosas e outros objetos me retorna um sentimento de tranquilidade. Acho importantíssimo sairmos às vezes dessa dura engrenagem que é o mundo humano atual. Os compromissos, horários, trabalho, trânsito e mazelas diariamente noticiadas são transcendidos quando estou diante de uma bela noite estrelada, vendo a Via Láctea a olho nu. É muito fácil sermos engolidos pelo dia a dia e nos desconectarmos completamente da Natureza e do Cosmos.

Então, até mesmo para que nossa mente tenha espaço para chegar com naturalidade e imbuída de uma real curiosidade até a pergunta “estamos sozinhos?” temos que antes reelaborar essa conexão perdida. Qual percentual da população humana atual está genuinamente curiosa se estamos sozinhos no universo? Quantos já olharam para a Via Láctea em um local livre de poluição luminosa?

Abusando um pouco da futurologia, particularmente acredito que acharemos vida simples (bacteriana) em uma de nossas luas do Sistema Solar nos próximos 30 anos. Encélado, Europa e Io são fortes candidatas por terem condições passíveis para manutenção da vida. Saberemos então que a vida não é tão incomum, e esse será o dado mais importante dessa descoberta.

ND: qual foi o fenômeno mais incrível e surreal que já presenciou?

Nesse ano de 2016 participei do 9° Encontro Brasileiro de Astrofotografia, promovido pelo Clube de Astronomia de Brasília (CAsB).  Durante o evento passamos as noites em claro, mais de 35 pessoas fotografando os céus. Em uma das noites precisei pegar algum adaptador no carro. Abri a porta e comecei a procurar o equipamento. De repente percebo uma luz forte por cima de meu obro, atrás de mim, logo pensei:  “quem é esse louco com essa luz forte ligada?!” .

Nesses eventos o máximo que se pode usar é uma fraca luz vermelha, para não atrapalhar as imagens nem os olhos já adaptados ao escuro. A luz ficava cada vez mais intensa e comecei a ouvir pessoas dizendo: “Oohhh” e “olha, olha,olha”. Virei-me rapidamente e pude ver que toda aquela luminosidade vinha de um meteorito (estrela cadente), entrando em atrito com a atmosfera da Terra gerando uma forte luminosidade.  O céu negro das 23 horas da noite ficou claro como o de um entardecer. Lindíssimo!

Carrancas - Minas Gerais (lente 100mm)

Carrancas – Minas Gerais (lente 100mm)

ND: Quantas vezes já teve de refazer uma foto até dar certo? Persistência resulta em perfeição?

Certamente a persistência é um item precioso em quem busca melhorar, seja lá no que for. Já tive que dispensar imagens por não as considerar boas ou interessantes. Muitas vezes, durante o processamento das imagens tenho que refazer decisões e até mesmo começar de novo uma imagem. Faz parte!

ND: Fotografia é momento ou técnica? Qual você acha que é a sua melhor foto e por que?

São os dois funcionando concomitantemente. A técnica tem que estar apurada para funcionar quando uma situação se descortina. A foto minha que mais marcou é uma que contém 297 galáxias apuradas. Essa é uma região do céu chamada de Aglomerado de Virgem. Fiquei muito impressionado que uma lente fotográfica podia captar essa quantidade de objetos.

Uma dessas galáxias da imagem é chamada de Messier 87. Ela possui 1 trilhão de estrelas e dista 70 milhões de anos-luz de nós. Ou seja, os fótons de energia (luz) saíram dessa galáxia há 70 milhões de anos atrás e terminaram suas jornadas no sensor de minha máquina fotográfica!

Aglomerado de Virgem em Goiás (lente 200mm)

Aglomerado de Virgem em Goiás (lente 200mm)

ND: Em quem ou em que você busca inspiração?

Busco inspiração em outros colegas astrofotógrafos, na própria natureza e na possibilidade de influenciar outras pessoas a criarem interesse por astronomia e ciências.

ND: O que aconselha para quem quer ser um grande fotógrafo?

Procure grandes referências. Liste os melhores fotógrafos em seu campo de interesse e tente atingir resultados parecidos. Outro ponto importantíssimo é conhecer muito bem sobre o que se está fotografando ou aprofundar sobre o tema no qual se quer fotografar. Percebo que em alguns casos os fotógrafos podem se perder nesse grande mundo dos equipamentos. Alguns chamam de “febre do equipamento”. Essa “febre” pode desfocar o que realmente é o principal.  Acho importantíssimo o estudo e conhecimento do ferramental, mas é preciso reconhecer de forma completa o assunto fotografado e as informações e emoções que devem ser repassadas ao público via imagem.

Padre Bernardo - Goiás (lente 24mm)

Padre Bernardo – Goiás (lente 24mm)

 

Bozeman - EUA (lente 24mm)

Bozeman – EUA (lente 24mm)

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Todas as fotos © Kiko Fairbairn

 

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