Viagem

5 coisas que aprendi viajando para festivais de música

Como nosso objetivo é inspirar, aqui no Nômades Digitais abrimos espaço também para ouvir histórias de pessoas que correram atrás dos seus sonhos ou decidiram desbravar esse mundão de alguma forma. Hoje acompanhamos um pouco as aventuras de Priscila Brito, que, junto com a amiga Gabrielle Fonseca, usa festivais de música como forma de conhecer outros países e culturas. Assim nasceu o Festivalando. Eis o que ela aprendeu no caminho:

Há cerca de um ano eu vivo em função de viajar. Na verdade, em função de “festivalar”. Ou de viajar para festivalar. Como quiser. É que não viajo para cidades ou países; viajo para festivais de música que, por acaso, se situam em algum ponto do globo terrestre. Foi uma mini epopéia que comecei no verão europeu de 2014 ao lado da Gracielle Fonseca, minha amiga e parceira dessa jornada. Rodamos por festivais na Europa ao longo de dois meses. Ela continuou por lá, complementando o giro. Eu voltei, festivalei pela América do Sul e agora estamos juntas novamente no Brasil para novos roteiros aqui e onde mais for necessário.

Em um ano, aproximadamente, foram 21 festivais em 11 países. No nosso diário de bordo permanente dessa jornada, o Festivalando, nós duas guardamos os “causos” (somos mineiras!), experiências e memórias desses festivais, assim como dos lugares e pessoas que conhecemos e ainda pretendemos conhecer.

A ideia era ver uns shows bons em lugares por onde a gente ainda não havia passado, mas virou mais que isso. Primeiro, virou um escape para fugir do marasmo profissional que me perturbava já há alguns anos. E assim nasceu o Festivalando, um projeto profissional em potencial que encarna a vontade de retomar o fôlego na vida e fazer o que a gente gosta do jeito que a gente quer: escrever, contar histórias, ir a shows, viajar. Tudo isso sem medo de escorregar na água derramada depois daquele chute básico no balde (alguns empregos foram abandonados nessa história. Mais de uma vez, inclusive).

Surpreendentemente, a peregrinação por festivais se converteu também em um encontro inesperado com alguns dos hábitos, valores e comportamentos de jovens como eu nos países por onde passamos, coisa que não se repetiu nos passeios que fiz por pontos turísticos tradicionais, tão cheios de gente de todo lugar do mundo, mas tão vazios de quem vive e faz o dia-a-dia e a cultura daquele lugar (Isso não é um desprezo pelo turismo padrão. Trago comigo também boas recordações da turistagem no muro de Berlim e no Cassino de Montreux, por que não?).

Como qualquer viagem, aprendi muito, vi coisas velhas com um novo olhar e também coisas novas. No fim, descobri nos festivais grandes portais de experiências: de todo tipo, algumas delas bem peculiares e diferentes de experiências que eu havia acumulado em viagens anteriores.

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Rodando o mundo atrás de festivais aprendi que:

1. Festivais te infiltram em meio aos nativos e oferecem uma amostra carregada de comportamentos locais

Roskilde Festival, Dinamarca, julho de 2014. No acampamento, onde festas improvisadas se sucedem num contínuo temporal, um grupo de rapazes canta, dança e bebe umas cervejas do lado de fora da barraca. A alguns passos dali, atrás de uma barraca vizinha, um cara vira-se de costas, abre o zíper da calça e faz xixi. Uma menina se aproxima, fica do lado do cara, agacha-se, abaixa a calça e faz xixi. A festinha continua ao mesmo tempo em que alguns dormem nas barracas e outros circulam pelo acampamento. Enquanto isso, um menino, duas meninas e outro menino repetem a cena do xixi no mesmo local, sem alterar o curso festeiro.

É claro que dinamarqueses e dinamarquesas não fazem xixi na rua uns do lado dos outros; existem banheiros separadinhos para cada um. Mas em uma região como a Escandinávia, onde a bandeira da igualdade de gênero é uma política levada a sério pelo Estado e com resultados efetivos, a cena das moças e rapazes juntos no matinho sem serem incomodados ou questionados por ninguém é uma amostra desse quadro em sua versão, digamos, mais exagerada e libertina.

“Culpa” do natural clima de oba-oba, extroversão exacerbada e às vezes um quase desbunde que insiste em impregnar a atmosfera de festivais. O mesmo vale para a outra ponta do extremo, na República Tcheca, no Brutal Assault, festival de heavy metal, quando eu e Gra tivemos que lidar com assédios constantes e infantis de marmanjos que chegaram a tentar fotografar nossas bundas. Uma reprise exagerada e abobalhada dos gracejos que ouvimos nas ruas de Praga, direcionadas a nós mesmas ou a outras moças, muitas com cara de turistas.

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República Tcheca, Brutal Assault

2. Festivais te fazem viajar mais que o esperado. E para lugares inesperados.

Festivais não acontecem no vácuo. Eles acontecem em uma cidade X, no país Y. Logo, você vai necessariamente conhecer a cidade X e o país Y. O interessante é que alguns festivais não acontecem nos principais centros, o que vai te fazer conhecer mais lugares do que conheceria num roteiro tradicional. Viajar para a República Tcheca significa ir para a Praga, certo? Mas eu e Gra acabamos indo a três cidades tchecas por causa do Brutal Assault, festival de heavy metal que acontece naquele país. Passamos uns dias em Praga. Depois seguimos para Hradréc Králové, onde acontece o festival. Como no meio do caminho de uma para a outra estava Kutná Hora, fizemos um pit stop por lá.

Em alguns casos, você pode se surpreender. Decidi ir para Montreux, na Suíça, atraída única e exclusivamente pelo Festival de Jazz de Montreux. No fim, acabei visitando um dos lugares mais bonitos que conheci até hoje, com uma beleza natural que eu simplesmente ignorava que existia na Suíça. A Gra foi para Aalborg, na Dinamarca, só por causa do Aalborg Metal Festival. Assim que chegou lá, me mandou um inbox falando sobre como a cidade era charmosa. Depois, concluiu que a cidade merece mais que uma só visita.

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Vevey, Suiça 

3. Festivais são um espelho da cidade onde acontecem. No que elas têm de bom e também de ruim

Bogotá já vem carregando há um tempo a fama de capital descolada, pulsante e moderninha. Quando recordo o Estereo Picnic, festival onde estive este ano, reconheço tudo isso nele. Tem um veado gigante que te recepciona na entrada do mercadinho que reúne os designers mais hipsters da cidade e a proposta de imersão do festival é original e diferente do que já vi até agora – um cenário moderno com uma pitada de caos, que também faz parte do que é Bogotá, uma grande metrópole latino-americana com problemas estruturais – e o próprio festival reflete isso, realizado em uma região com oferta deficitária de transporte público e um trânsito ruim de doer.

Bogotá, Colômbia

Aí eu chego em Santiago, essa capital toda certinha, arrumadinha e organizada para os padrões da nossa região, e me deparo com um festival idem. A facilidade de ir e voltar pro Lollapalooza Chile foi a mesma facilidade que encontrei para ir e voltar das minhas longas caminhadas à tarde pela cidade. Transporte de massa que funciona e prioridade para o pedestre quando necessário, seja nas múltiplas entradas do festival para evitar filas do público transbordando pela rua ou nos “paseos” do centro de Santiago, conjunto de vias exclusivas para pedestres.

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Santiago, Chile

Do metrô eficiente de Santiago para os ônibus retrô de Assunção, encontrei no Asunciónico um festival praticamente à moda antiga, quando o que importava era só a música e uma bebida boa. As ações de patrocinadores, headliners obrigatórias nessa nova era de festivais, estavam ali relegadas a segundo. Não havia nada tão ou mais interessante (e importante!) do que os dois palcos, onde os shows se alternavam um após o outro, sem intervalos ou conflitos de horários. Seguindo um ritmo menos frenético de modernização, imposto por condições históricas pouco justas, onde passado e presente ficam juntos de uma maneira tão evidente, Assunção viu nascer um festival com um pé lá atrás e outro no aqui e agora: o lineup mais atualizado possível dentro de um formato de festival quase esquecido no tempo (infelizmente).

4. Como um país estrangeiro, festivais também podem te obrigar a sair da sua zona de conforto cultural

Aprendi com o tempo a abrir os ouvidos pra tudo quanto é tipo de música (e ganhei muito com isso). Mesmo assim, ainda tenho minhas preferências, e elas não passam necessariamente pelas vertentes mais extremas do heavy metal. Mesmo assim, incluí um festival de heavy metal no meu roteiro: Brutal Assault, na República Tcheca.

Longe do meu habitat musical natural, vi que aquele clichê segundo o qual um dos pontos positivos de um festival de música é descobrir bandas novas mostrou ter muito sentido. No Brutal, acabei assistindo dois dos meus shows preferidos na viagem por sete festivais europeus: Shining e Combiechrist. Senti aquele prazer de estar ouvindo uma banda tocar diante de mim mais que nos Stones (um show obrigatório na vida) e no Arctic Monkeys (que estava muito a fim de ver), ambos no Roskilde. Ainda me diverti horrores com a bricolagem de referências do metal feita pelos suecos do Amon Amarth, um Massacration que se leva muito a sério.

E se no fim de tudo o clichê acima falhasse, ainda assim teria valido a pena. Quanto maior o festival, menos ele aposta só nos shows e no Brutal não foi diferente. No dia em que optei por não ver nenhum show, vi dois filmes e uma exposição de arte. Nos quatro dias, pude conhecer e admirar um ponto turístico da República Tcheca, o forte militar Josefov, onde acontece o festival. Bati papo com um romeno que me deu dicas sobre festivais em seu país. Enfim, os quatro dias de festival me proporcionaram muita diversão, mesmo eu tendo me sentido uma outsider em meio aos headbangers.

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5. Festivais podem ser experiências imersivas

E isso é graças ao acampamento, recurso bastante comum em festivais gringos e em alguns festivais por aqui também. O fato é que o camping não é um amontoado de barracas com gente louca e bêbada (ok, às vezes é isso também). É uma outra dimensão que te permite mergulhar completamente na realidade paralela de um grande festival. Não tem a volta pra casa no fim da noite que quebra o clima e te faz retornar pra vida real e normal. É diversão, cansaço, brincadeira, loucura e quebradeira full-time. Por alguns dias, é como se não existisse a vida lá fora.

Me lembro dos meus primeiros minutos dentro do Roskilde, na Dinamarca. A entrada é obrigatoriamente pela área do camping, e logo nos primeiros passos que dei em meio às barracas, pensei comigo: “gente, isso é um festival de verdade!”. Detalhe: o festival em si (os shows) só começaria numa quinta, mas naquela segunda-feira em que chegamos o acampamento já estava lotado porque as pessoas amam tanto o clima e a energia do local que a organização libera o camping dias antes e o público logo trata de acampar só para viver nessa atmosfera. Um dinamarquês que vai ao festival há seis anos com a mesma turma de amigos me disse claramente que, para muitos, inclusive pra ele, a música é o que menos importa em Roskilde. O importante mesmo é deixar os problemas lá fora e viver aquele momento, e eles esperam ansiosamente todos os anos para que essa hora chegue.

O acampamento é a parte pulsante de um festival. Os shows acabam, as luzes se apagam, mas a atividade nele continua, com gente circulando, bebendo, gritando, brincando. Naquele amontado de barracas, o festival nunca para e nunca deixa de acontecer. E por alguns dias a vida vira uma versão prolongada de “Curtindo a Vida Adoidado”, do jeito que todo mundo já deve ter sonhado em algum momento.

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Todas as fotos © Priscila Brito

Você pode seguir a Priscila no site do Festivalando ou no Facebook.




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