Brasileiros Viajantes

10 coisas que aprendi morando em Buenos Aires

De volta a América Latina, o Brasileiros Viajantes desta semana nos leva em uma viagem curta, mas muito intensa. Tal como a relação entre brasileiros e argentinos. À boleia de Túlio Bragança, que trocou o Brasil pela capital argentina em 2006, descobrimos o que podemos aprender com nossos vizinhos.

Morar fora do Brasil é algo que recomendo a todo mundo. Não tem um dia que você aprenda alguma coisa, seja na rua, nos estudos ou no trabalho. Entrar de cabeça numa outra cultura é algo doloroso, mas que traz muitas recompensas. Ver outras maneiras de trabalhar, pensar e reagir a certas situações é enriquecedor, te deixa muito mais tolerante e abre sua cabeça.

1. Não ter vergonha de ser o que somos

Logo que cheguei na cidade eu não parava de reparar em quanta gente bizarra que via na rua. Cabelos estranhos, roupas escabrosas, combinações de fazer qualquer um chorar. Mas com o tempo fui percebendo que isso, que antes eu achava risível, era culpa do meu próprio preconceito. As pessoas aqui se importam primeiramente em estar confortáveis consigo mesmas e depois no que os outros vão pensar. Esse pensamento até ajuda a deixar a Argentina na vanguarda de direitos de minorias. Temas como casamento gay e identidade de transexuais aqui já são leis estabelecidas. Cada um tem o direito de ser quem quiser ser. Existe uma parcela da população contra, mas ela tem pouquíssima voz. Ainda bem.

2. Conhecer seu passado antes de fazer planos para o futuro

Isso é algo que vejo tanto no mercado de trabalho quanto no cotidiano das cidades. Ao contrário do brasileiro que é um povo que tem memória curta, o argentino parece nunca esquecer de nada. Sabe a história de sua cidade, dos prédios a sua volta, conta com detalhes como seu país chegou a ser o que é. Sabe de onde veio e como isso o ajuda a direcionar seus planos e projetos. Talvez essa seja uma lição que eu aprendi e coloco mais em prática que os argentinos, afinal de nada serve aprender com os erros do seu passado se você insiste em cometê-los novamente, esperando que os resultados sejam diferentes. Uma prova disso é a economia do país.

3. Valorizar o seu tempo livre

Chega fim de semana e tem sol, todos os parques e praças da cidade ficam cheios de gente lagarteando. Pode ser culpa que Buenos Aires não tem praia ou porque a maioria das pessoas vivam em apartamentos apertados, mas o fato é que as pessoas sabem aproveitar muito bem seu tempo livre. Restaurantes cheios, museus lotados, cinemas sempre bombando me fazem perguntar muitas vezes: onde é que está a crise da Argentina? Argentino odeia ficar em casa e eles estão mais que certos. Quantos de nós passam 8 horas sentado na frente do computador no trabalho e, quando chegam em casa, a primeira coisa que fazem é ligar o computador?

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4. Sempre existe tempo para um café

Entenda como café qualquer coisa que você goste e possa servir como uma pausa num dia cheio. Vale muito mais a pena perder meia horinha saindo pra tomar um café ou sorvete para refrescar a cabeça e recarregar energias do que passar horas e horas dentro do escritório sem o mínimo de ânimo e disposição. Em muitas vezes o melhor remédio para melhorarmos a produtividade é simplesmente não fazer nada por um momento.

5. Saber vender é tão importante quanto saber fazer

Nunca curti muito a expressão “Fake until you make it” [“Finja até conseguir fazer”, em tradução livre], mas ela tem muito de verdade. É preciso saber fazer, mas também espalhar para todos que você sabe fazer. Saber vender um projeto ou uma ideia é tão importante quanto tê-la. Empreender significa dar a cara a tapa, buscar, ir atrás, incomodar. Uma ideia genial que não sai do papel não serve para nada. Uma colombiana que é dona de uma grande agência de turismo na Argentina certa vez comentou comigo que o sucesso da indústria do turismo do país é que eles sabem se vender muito bem. Prova disso é comparar o número de turistas que recebe em comparação com o Brasil. O argentino muitas vezes é visto pelo brasileiro como uma arrogante e nariz empinado, mas acontece que se ele mesmo não acreditar que é capaz, quem vai?

6. Seu trabalho é importante, mas sua vida é mais

Ter projetos pessoais, sair para conversar com os amigos, aproveitar um cinema, ir para a academia. O dia tem 24 horas e não deve ser dedicado somente ao trabalho. Sinto que na Argentina as empresas abusam menos das pessoas. E o mais incrível é que elas continuam sendo capitalistas e ganhando dinheiro! Aqui deu 18h horas todo mundo vai embora. Trabalhar fim de semana é uma grande raridade. No Brasil existe uma mentalidade babaca de ficar mais tarde no trabalho pra mostrar serviço, algo que é alimentado tanto pelas empresas como pelas pessoas que trabalham lá. Já deu a hora do trabalho, mas tá todo mundo no Facebook fingindo estar trabalhando. Já passou da hora das empresas se planejarem melhor e aproveitar melhor o seu tempo. Cansei de ver agência de publicidade no Brasil onde você só recebe o trabalho durante a tarde, depois de ter perdido toda uma amanhã com tempo morto.

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7. É possível viver sem carro

Numa grande metrópole com sistema de transporte decente é possível sim viver sem carro. Faço isso há 8 anos e a maioria dos portenhos fazem o mesmo. Tudo é perto, os ônibus funcionam durante 24 horas e o metrô, por mais que seja velho e sujo, chega a boa parte dos bairros da cidade. E claro, se você não curtir viajar apertado na hora do rush, ainda existe todo um sistema de ciclovias, que a cada ano é ampliado. É muito comum eu sair do trabalho e encontrar congestionamento de bicicleta em algumas esquinas, só pra ter uma noção de quanta gente usa! Mas é claro, digo isso como alguém que não tem filhos. Talvez para os pais a história do uso do carro seja diferente.

8. Amigos são essenciais

É claro que nós brasileiros também temos essa cultura de valorizar os amigos, mas na Argentina a coisa vai ainda mais longe. A fidelidade quase canina que as pessoas têm com seus amigos é impressionante. É praticamente lei que o grupo de amigos dos argentinos se mantenha desde a época do segundo grau até o fim da vida. As pessoas são muito íntimas uma das outras e se conhecem muito bem. Sinto que no Brasil quando estamos no segundo grau ou faculdade temos muitos amigos, mas depois com o tempo muita coisa vai ficando no caminho e aquele grupo de amigos vai desaparecendo. Isso é ótimo pois você pode sempre contar com gente que conhece seu passado e história. Aqui há um esforço enorme em manter os laços, o que causa até situações impensáveis como um cara deixando de sair com uma menina que conheceu faz pouco tempo e está no auge da paixão pra ver os amigos.

9. Estamos perto, mas somos muito diferentes

Essa história de que somos latinos e irmãos é uma baita balela. Dizer que somos todos farinha do mesmo saco chega a ser um desrespeito com nossas particularidades. Temos sim muitas coisas em comum, mas comparar um uruguaio com um mexicano, por exemplo, é um absurdo. Tem toda uma cultura e hábitos totalmente diferentes. O Brasil mesmo está coladinho na Argentina, mas vai ver como as comidas, tradições, pensamentos e costumes são bem distintos. Ao saber disso fica muito mais fácil trabalhar e interagir com as pessoas, porque nunca espero que eles pensem e se comportem do jeito que eu faria.

10. O brasileiro trabalha pra caramba mesmo

Isso fica claro quando comparamos com outras culturas e nacionalidades. Tive a chance de trabalhar com gente de todo o mundo e perceber que a gente leva as coisas muito a sério, se entrega, se dedica e, consequentemente, acaba se destacando com muito mais facilidade. Somos muito mais pró-ativos e inquietos, enchendo muito o saco até encontrar a solução para um problema. Muitos acham que “jeitinho brasileiro” é sinônimo de corrupção ou informalidade, mas é muito mais que isso. É a agilidade, criatividade e perspicácia na hora de agir sob pressão. Pena que muitas vezes ele é usado para o mal.

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Para acompanhar as histórias de Túlio pela capital argentina, siga o link.

Todas as fotos © Túlio Bragança

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